28.12.06

Novo Rumo

A prepotência, enlouquecida
Ousou supor que o amor tinha desaparecido
Sumido no mapa do descaso
Encrustado num tesouro que coroava o nada

Engano infindável

O amor sequer se encontra
Apenas se sente
Em todo lugar
Perto, distante, importante

Imponente e constante

Alheio a qualquer clamor desesperado
Surdo, inteiramente insensível
Aos grotescos graves entraves
Propostos por nossa pressa infame

Embaralhamos todos os sentires

Somos complexos quando a simplicidade é imperiosa
Desligados e desleixados quando efervescem detalhes
Velozes quando imprescindível a paciência
Crianças quando devemos ser amantes lascivos

Dissimulação afasta o sucesso

Sejamos sinceros
Verdadeiros e eternos
Aprendamos que a verdade muda de pessoa para pessoa
Que existe em todo lugar

Principalmente em nós

Crie o deus dentro de sua existência
assuma seus erros, suas desavenças
exponha suas vitórias, suas sentenças
descubra de maneira inquestionável

Todos somos amor

13.10.06

Devaneio

Perfeito o caminho
Que transcorre limpo, ímpio: límpido
Cristalino como a chuva que nos fecha os olhos
Fazendo enxergar mais do que se pode pela visão

Mergulhe na conveniência audaz de sentir completamente

No fluxo daquilo que sequer se compreende
Novamente amadureço a infância jamais perdida
Troque a ignorância amável da falta de experiência
Pela inteligência decisiva da maioridade

Debulhe sua humildade nos campos do orgulho

Abra mão apenas quando tiver tudo a perder
Seja caridoso justamente quando tudo lhe for abundante
Jejuar na ausência total das posses
É a única alternativa existente

Não há nada de obstinado nisso

Não peque pela maldade indecente
Que escorre pelas mãos
Feito luz que não se segura
Quando a impossibilidade lhe for insuperável

Sucumba. Sofrer e perder são grandes chances para melhorar e vencer

Tente com toda sua vontade
Perceber a oportunidade que se esconde
Em cada pequeno ou grande revés
Considere-se capaz para toda luta

Prove do mundo e o tenha a seus pés

Escolha não pisá-lo, porém
Quando tiver que ser guardião do exemplo
Seja o próprio em questão
Toda vez que parecer óbvio permitir-se o erro

Troque de lugar com o espelho e instrua o perdão.

4.10.06

Te Beijo

Dai a mão como se fosse perdê-la
Encontre-se, justo assim, na próxima
Que com certeza absurda
Se lhe estenderá

Entrega escancarada

Siga sua alma
Chore toda vez que lhe ocorrer vontade
Viva infinitamente
Presenteie-se com a dádiva maior

Abra-se

Desconsideráveis oceanos bravios
Mares, vales, terremotos
Desdenhe de qualquer ente da natureza
Estranhe a força descomunal

Desde que seja possível reconhecer-se

Desvincule sua essência do que o mundo o supõe estar
Acredite, levemente, naquilo que é
Seja, lhe suplico
E não serás nada mais do que já o é

Tudo, simplesmente

Por muitas vezes, na sua jornada
Parecerá que o que tens
Transcende o que merece
Que abunda o que aos desprovidos rareia

Inverta sua posição

Merecimento deriva dum binômio
Tão dolorido quanto gratificante
Jamais abra mão de ser
Capaz e confiante

A sorte só é aliada daqueles que têm azar

Faça tudo para desmerecê-la
Escute, olhe, sinta, toque
Erre, acerte, tente, aprenda
Ajude, ensine, compartilhe, compreenda

Aos capacitados é impossível falhar

Trabalhe a injustiça do mundo de forma justa
Quando lhe pedirem para ser um pouco pior
Repreenda-se, impermita-se
Repouse a compaixão aos olhos

Renda-se : seja, simbolicamente, menos melhor

Tradição é algo que ocupa muito espaço
Inconvenientemente
Desfaçamos-nos como um todo destes ranços
Precisaremos estar vazios, pois

Paremos de confundir caridade com mediocridade

Desconsidere qualquer pedido de retorno
Quando a anterioridade obrigatoriamente
Remeter a patamares retrógrados, arcaicos
Quando alguém lhe estender a mão, de baixo

Curve-se quando estiver forte o bastante para puxá-lo

Melhore o universo que lhe cerca
Mesmo que este compreenda ínfima geografia
Entenda que tudo que fazemos
Se expande sem harmonia

Vivendo entre os outros, harmonicamente

Continue crescendo
Mais, muito, indefinidamente
Ao duvidar ser possível
Reponde tranqüilo:

Sou aquele que merece, perfeitamente

27.9.06

Atitulorium

Descansa enfim em minha boca
Como a saliva quase gota
Dependente e insustentável
Perfumada ao hálito de minha necessidade

Sinta meu prezo por ser-te indispensável

Cola em meu colo onde te coloco afável
Desbanca meu banco de carne e osso
Enlaça meu peito com seu dorso
Dobra seu desejo em meu pescoço

Abraça minha vontade com a firmeza de suas pernas

Suspira em minha vida esta morte breve
Seu prazer insano de imortalidade leve
O peso ínfimo que quer que releve
Seu interior que meu exterior revele

Ser dentro de seu ser tudo que pode o querer

Acorrente minha solidão hipócrita lá fora
Arremesse as chaves despenhadeiro abaixo
Prove ser fêmea onde me acho
Fenda sem arestas rústicas onde me encaixo

A rima desta frase é desnecessária

Preciso é o que preciso de você
Seu cheiro, seu gosto, seu rosto
Repousado em minhas mãos carinho
Coração ao teu lado, alado: passarinho

Que não passa de um filhote no ninho

A espera de seu calor proteção
De seu compromisso caução
Sua mentira; ilusão
A verdade: paixão

Vida entregue em sua mão

Ao se por às minhas em gratidão
Fechamos o ciclo de uma só vez
Sem esperar retorno, tudo tivemos
Sem o menor esforço tudo se fez

Repetiria tudo, sem a menor desfaçatez

20.9.06

Primavera

Atrelamos tanto o passado ao indesejado
Que por vezes, preconceituosamente
Abandonamos consultá-lo
Preterimos o pretérito aprendizado

Continuamos num futuro errado

Partimos da premissa que precisamos o novo
Esquecemos da instrução básica
Anterior a todo almejado destino
Fundamental e precedente a tudo

Há sempre um lugar de onde partimos

Um antes que prevê o depois
O aceno que será adeus
O breve que perdurará
Amanhã que sempre foi e será hoje

Futuro é ser filho do passado

O tempo longe do papel
Provou-me o significado da saudade
Pulverizou qualquer noção de idade
Apanhei-me escrevendo as linhas do costume

Retas-atalhos das minhas voltas tortas

Que entortam, rodilham, envolvem
Que cansam, insistem, comovem
Trazem de volta o velho hábito
Ressuscitam este antigo jovem

Que renasce a cada escolha nas palavras

A vida impôs-se ao meu viver
Ultimou minha rotina com propostas voláteis
Mas passageiro á a única coisa que o tempo não é
Ele fica, agrura, perdura

Escolhi viver

Aprendi que decidir deriva de inoportunidades
Da total falta de escolha
De ausência de liberdade
D’uma imposição que permiti fazerem-me

Anecessária posição

Tal qual regras de escrita e das palavras
Que nem sempre abarcam meus significados
Outrossim, quase nunca os absorvem
Ouso criar algumas que me satisfaçam

Ousadia; fruto dos que colocam o desejo ao norte

Incuta razão em seus sonhos
Embuta coragem a seus atos
Imprima confiança a seus acompanhantes
Exprima-se somente por derradeiros fatos

Fatalmente irá vencer

Continuo buscando mais
Persisto em fazer melhor
Por mais que eu prospere e vença
Cobrar-me-ei em ser maior

Não se limita o imensurável, ninguém mede o desejo pois

10.7.06

Sinceramente

O que fica da saudade é vento
Da vontade ausente; lamento
Cansado de tanto fazer nada eu calo e sento
Exausto de rimas pobres, simplesmente não me agüento

Arrebento em sons que não sei escutar

Choro cada alegria como se única fosse
Verdadeiramente são
Despeço-me do marasmo da falta de rotina
Entregando-me a insatisfação por estar sempre satisfeito

Refaço-me naquilo que não perdura

A simples falta remete àquilo que mais preciso
Mirando o esmo infinito da certeza
Acerto lugares que são ausentes
Na presença que monto fora do que existo

Desconexo, tendo a pender pelo sumiço

Na fumaça espessa da bruma que se arrima
Sinto perto a distancia que se apruma
Ferramentas pesam em minha bolsa vida
Nasço novo de forma desprovida

Onde cada passo é uma torre que se ergue

Fica quase intransponível meu passado
Lacrado num tempo que só pode ser dele
Dono dum poder que não se aliena
Próprio da índole que sempre o condena

Imutável e apaixonante como a piada do novo dia

Todo dia a cada dia e sempre
Tão belo quanto único
Tão singular quanto fugaz
Completamente efêmero se desfaz

Levando consigo a perfeição de ser incopiável

Se fossem eternos trariam torpor
A beleza imutável traz a certeza da indiferença
Quando acaba a possibilidade de novidade
Esvai-se a riqueza da surpresa

Fica a mesmice da ignorância

Pois a pretensão daquele que se antecipa
Mumifica o movimento dos que caminham
Ignorar as mudanças do intangível
É petrificar a mobilidade do sentimento

Não se aprisiona o que não se lhe pertence

Viva para estar pronto a perder-se
Encontrando-se em cada nova dação
Pratique a arte de dar o que precisa
Em troca de receber o que não se tem

Dói muito mais o fardo do tudo que a leveza do nada

Somos recipientes de nossos desejos
Dimensionados para experimentar, aprender e trocar
Percebamos enfim, mas não no fim
Que devemos compartilhar com o ambiente

Que os sentidos são um ecossistema vasto

Enxerga a ti mesmo no outro e serás em todos
Estenda seu ser aos que são em sua volta e eternize
Embrenhe-se nas almas boas e ruins a sua volta
Saiba deixar-se em umas e sair das outras

Puerilmente viva; auspiciosamente

Seja oportuno e não oportunista
Encare a sua possibilidade como algo que deve ser conquistado
Quando não puder ser completamente certo
Entenda-se justo

Faça com que seja entendido por todos

Estando assim em lugar comum
Lapide a mesmice com a diferença
Gere dúvida em cada vida que lhe toca
Soerga nelas a certeza de sua presença

Seja em tudo, sempre: uma crença

14.6.06

Perceptivo

Porque as pessoas deveriam entender
Que as vontades não podem ser escutadas
Merecem ser sentidas
Sem ter que tomar emprestado o caráter físico do pedido

É maravilhoso adivinhar o outro

Antecipar de forma natural
Um ato proporcionador de felicidade
Atitudes simples que nos tornam especiais
Detalhes que nos fazem imprescindíveis

Segredos são as mais intimas publicidades

Palavras que trocamos em silencio
Olhares que miram à saudade
Suspiros que remontam seu corpo
Sons que tocam a pele e arrepiam

Sua presença onde quer que você esteja

Independente de marco ou comemoração
Quero festejar sempre
A grandiosidade inexplicável
Que é amar e ser amado

Por, para e com você

12.5.06

Alternativa

As músicas parecem estar calando
Deve ser a esperança cedendo lugar à verdade
A certeza de perder começa a latejar mais constante
Já penso no jeito de tentar aceitar

Que eu te deixe partir pra sempre

Dolorido novamente
Só que desta vez não será apenas tentativa
Conseguirei definitivamente
Irá doer como nunca

Mas será de única vez

Conseguirei sofrer como poucos
Abrirei mão de muito
Como recompensa terei a mim novamente
Completo, solitário

Como nunca deixei de ser

Voltarei ao estado de hermetismo de que tanto gosto
Trancado, intocável, impenetrável
Sisudo para as alegrias breves
Ausente aos comburentes que se vão num mero sopro

Surdo às notas que noticiam nada

Passei por isto antes e fugi
Desta vez encararei
Sinto ser necessário mais este tempo
Ele novamente

Identicamente, sem minha culpa

Vista grossa para coisas demais
Fingi não enxergar o escancarado a minha frente
Agora já incomoda
Sentir o limite do próximo

Que não pulsa, expulsa: me repulsa

Só quis amar este tempo todo
Doei, entreguei, compartilhei
Desfiz de mim em prol do outro
Fiz tudo que devia fazer

Porém, ao amar, não se deve nada

Tudo é o espontâneo
Obrigação e ingratidão são incompatíveis com o nobre verbo
Ele não pede nada em troca
Apenas pessoas, duas

E não somos, pois

Infelizmente não seremos jamais
Certos passos nos tiram completamente da rota
Desvirtuam nossa jornada
Aniquilam certos destinos

As decisões mais devastadoras são sempre conscientes

Estou prestes a tomar uma delas
Gigantesca, atormentadora
Não tenho medo de colocar-me pedindo ajuda
Prezo a possibilidade de não recebê-la

Apenas proíbo-me ficar parado

Meu tempo de fazer findou-se
Qualquer apêndice é mero exaurimento
Precisamos de um passo seu
Daqueles devastadores

E então, sabe o que está fazendo?

Afirmativas sucessivas seriam bem vindas
Para que a duvida fosse apenas salva guarda
Ferramenta da heresia
Luxo de quem quer apenas ratificar

Vitória da perseverança sobre a teimosia

13.4.06

Meio assim ...

Luto por um tempo
Onde as noites não serão longas por sua ausência,
Mas curtas, pois a eternidade é pouca quando ao seu lado
Procuro um mastro para amarrar meus ponteiros
Norte de meus delírios perdidos
Que ao mesmo tempo me aponte você
Perco o rumo num escuro raso
Em que náufrago, afogo minhas dores profundas
Sutis pesares de uma angústia suave
Brandindo abrupta na profundeza de minha face exposta
Encarnada nas entranhas de um parto que não resolve
Saída de um retorno que não devolve
Sequer fragmento do meu lamento derramado

Vem suspiro como se vento fosse
Venha vento que com suspirar levasse
Qualquer lembrança que me sustentasse

Em ruína breve a essência da saudade
Compõe-se em arrimos basilares
Soerguendo arremedos de desfaçatez
Na vontade unânime e uníssona de conquista e domínio
Aquela pelo respeito e admiração
Este pela liberdade eterna que planifica e iguala
Mantendo a única diferença aceita por aqueles que comungam
O dom de conviver no estado pleno e denso; intenso
Pois amar, além de arder e doer é mutante e tenro
Faz o mestre retroceder e aprender
Transforma soberba em humildade
Doa à maldade a mais profunda nulidade

As palavras dizem exatamente o que o silêncio promete
Descumprem-se todos os destinos
Desatinos passam a ser dogmas inalienáveis

Tudo ao fim, enfim, não passa de mero instante
Novo que é exatamente como era antes
Estático que cisma em seguir adiante
Defunto que não se impede que levante
Idéia viva, fixa, sem centro: mirabolante
Errante em qualquer ser que se mostre vivo
Leve demais para ser constante
Muito denso para ser bastante
Sentimento de valor físico irrelevante
Filtro de vida purificante
E antes que desavisado algum se encante
Pequeno aviso intrigante:

Amar é sem conceito
Sem preconceito:
Edificante.

22.3.06

Concordo

Justamente por que
Há horas em que urge
Fazer a volta, contornar o local
Bordar o destino com os jardins que ele merece

Embora na maioria das vezes ele o peça

Seguir em frente pode ser fatal
Orgulho em retroceder
Pode levar à inércia
Ficar parado, matará a vida

Volte atrás

Não para fazer o mesmo
Repetir acertos também é errar
Pois perdemos tempo
Divindade que nos consome e sempre escapa

Torne o caminho de volta uma nova ida

Que lhe desvie o abismo intransponível
Sem desvirtuar-lhe o ponto de chegada
Fazer da maior distancia um atalho
É arte conhecida por poucos

Depende de quanto se dispõe a perder para ganhar

Preferências são rumos sem dor
Escolhas pela facilidade circunscrita
Apaixonante e fácil
Isenta de pecados e proibições

Porem, tende à certeza do marasmo

Toda vez que for muito fácil
Queira mais, anseie maior: ambicione
Ou simplesmente perceba
Que o algo já lhe pertence ou não é o que se quer

Fuja do imediatismo que despersonifica a conquista

Diante do abismo passado que antes o paralisava
Remonte o trajeto que percorreu até aqui
Lembre-se que poderia estar lá em cima
Inerte, ileso: sonhando simplesmente

Fossilizado por um tolo medo

De pensar-se retrógrado e menor
Por ser incapaz de transpor o impossível
Quando o oponente consumar-se invencível
Seja inteligente

Decida não enfrentá-lo

Pois a vida pode até ser construída com sonhos não vividos
Desvirtuada e triste devido a escolhas infelizes
A lembrança entretanto
Nunca é composta por passagens mortas

Ela pulsa, arde e vibra; involuntariamente

Aguarde o momento certo
Torne-se colossal, intransponível
E se mesmo com fenomenal esforço
Derrotar aquele inimigo continuar impossível

Volte, pois só nós mesmos estamos em todos os nossos caminhos

7.3.06

Datas

Obrigado por este dia ter acontecido
Pela vida que impôs a minha vida
Transformando mero caminhar
Numa marcha firme rumo ao destino

Feito com minhas próprias vontades

O que antes parecia atemporal e infindável
Contornou-se de efêmera velocidade
Bordando meus desejos recém nascidos
Vejo um homem que aprendeu há pouco o caminhar

O incentivo é que faz viver

Foi-se o tempo de passar por ele
A convivência branda e gratificante
Agora é brusca e lancinante
Cada momento que se esvai é como sangue

Doído e querido ao ser derramado

Felicidade por estar impregnado de felicidade
Grávido de um sentimento maravilhoso
Que não se basta nos adjetivos que conheço
Transcendendo minhas antigas certezas

Transformando tudo em simples nada

Gestação de um futuro cada vez mais próximo
Sensível aos sentidos do tato, olfato, paladar e audição
Estranhamente não o vejo
Entretanto isto se faz desimportante

O sentir não precisa de luz aos olhos para existir

Basta o querer; o reconhecimento do outro
O mínimo que se propõe é vontade
O máximo que se busca é liberdade
Todo o resto é mera composição

Deste sonho que me assola

Ainda busco o dia
Em que neste mesmo dia
Poderei acordá-la com um beijo
Dizendo baixo em seu pé de ouvido:

Parabéns, criatura! Eu amo você

27.2.06

Demora não

A saudade me perturba.
Sua falta quase me derrota.
Mas a possibilidade de vencer e a certeza de te ver
Fazem querer-te ainda mais.

Amo você

10.2.06

Que a mão direita não saiba o que a esquerda fizer...

Mas o lado esquerdo desse corpo quer parabenizar o lado direito por mais um natalício.

E lembrar dos dois que estão longe tb...

Se cuida. Porque o livro nos salvará.

Beijos.

PS: ganhou os óculos?

30.1.06

Coisa

Não há, realmente, nada como amar você
Esse tudo que parece sempre incompleto
Este longe que se sente mesmo perto
Plausível erro de quem vislumbra o certo

Por mais certeza que se tenha em não saber o que se faz

E lho sinto assim
Uma coisa que chega e parece que sempre se vai
Vazio que preenche
Concretude que com o brandir da saudade se esvai

Eterna percepção daquilo que não se define

São inúmeras as definições
Porém geralmente indefinidas
Pois que não postulam menor regra
De tão desregrado que se apresenta

Estranha esta intimidade com este total desconhecido

Escorrega pelos braços
Por vezes pesa, quase insuportável
Por outras escapa de tão volátil; maleável
Ainda assim, extremamente nosso, cismamos em dá-lo

Como se disponível fosse; um simples regalo

Abençoado como o mais maldito dos regenerados
Cultuado, venerado, adorado
Outrossim submisso, renegado, acossado
Indistintamente perseguido, objetivado

Estado de perfeição uníssono almejado

Um pulsar desesperado que te busca em cada canto
Motivado por paixões e desencantos
Regado ao suor do esforço
Ao desalento, ou alegrar dos prantos

Coisa que te quero e de ti espero em tanto

Descobri não ser tão auto-suficiente
Tampouco onipresente e uni subsistente
É coisa dada ao bom vício da concorrência
Da necessidade do corpo presente

Atitude de querer constantemente

Por isso não demore
Não faça com que por tristeza eu chore
Venha com sua peculiar e plural fome
Conserve-me e me devore

Esqueça os olhos e me olhe

Com o sentir da lembrança
Com o querer da esperança
Com a dúvida da segurança
Com a mão de quem alcança

Agitação incontinenti que amansa

Sai de ti e vem
Dê-se a si e me tem
Seja meu eterno alguém
Saiba-se não viver sem

Pense ser impossível e iremos além

Das estrelas que nos adornam
Da lua que remete ao que foi
Da infinitude do céu que escorre límpido
Do brilho do sol que ofusca quando vem

Sejamos mais do que o mundo que se oferece

E ao construir nossa morada
Sem trincheiras ou brigadas
Quero apenas o frescor das madrugadas
Nosso reflexo nas águas iluminadas

Nossa calma nas tardes descansadas

Tenhamos teto no sossego
Posse no desapego
Prisão na eterna e indisponível liberdade
Pois apenas aquele capaz de nos fazer livre

Naturalmente ama de verdade

16.1.06

Físico

Não há noção ainda do percorrido
E desinteressa este que não se pode mudar
Tem-se, de fato, a impressão sincera e real
Da proximidade com a chegada tão esperada

Engana-se por completo quem almeja o mero fim

Este será apenas meio
Ferramenta de um desejo maior
Um patamar seguro
De onde se pode avistar mais ao longe e respirar

É infinito o céu que se contempla

Ele chama como se urgente fosse
Conquistar seu azul e seu cinza peculiar
Agrada às vistas com o deslumbre do horizonte
Enche o peito de lágrimas quando torrencial chove

Inundando o querer de esperança

Mas há mudança neste combustível
O que antes era como uma entidade intocável, quase santo
Hoje é devasso e escravo das minhas atitudes
Uma prostituta virgem movida ao prazer das minhas conquistas

Agora acredito na concretude de meus sonhos

As tentativas estão mais consistentes
Os erros cada vez mais previsíveis, evitáveis: consumíveis
A distância, embora insabida é perceptível
Quase um objeto a se colocar no bolso

Falta realmente muito pouco

O esforço é proporcional
Assim como a velocidade dos tempos idos
Pois tempo é uma sensação e não uma coisa
Quando ocupamo-nos prazerosamente ele some

Insistir na contrariedade só traz angústia

E tudo se paralisa
O mundo pára
O peso pesa
E o pesar do mundo ampara

Todas as suas desculpas

O que se tem afinal
É um somatório de dúvidas e curvas
A cada volta enterramo-nos mais e mais
Inexiste a sensação de chão

Apenas um vôo livre e desgovernado

Anarquia nunca resultou em nada
Desde os primórdios
Existe um conceito
Que ajusta a vida em comum

Potencial é realmente nada sem controle

O mais importante deles
O exercido sobre nós mesmos
Deve ser administrado, treinado: dominado
Precisa, necessita e deve ser corriqueiro

Saber-se por inteiro é condição para dar-se e doar-se

Desprendimento não equivale a dação
Extrema agudeza de saber
Tem aquele que consegue desfazer de si
Para encontrar-se no outro

Religião do bem comum

Comungue a um lugar chamado nós
Peça a um deus chamado eu
Descubra um caminho chamado tempo
Seja uma vitória chamada resultado

Se esforce, vença e vá,

Pois sucesso é um mérito seu
Aceite quando conseguir êxito
Viva intenso este momento soberano
Só você sabe o quanto de sua paz está condensada ali

Expanda todas as suas virtudes

Só não reclame daquilo que não pode ter
Das coisas que não fez por onde conseguir
Tenhamos consciência que tentar é permitido
Mas que fazer tudo ao mesmo tempo é proibitivo

Escolhe, define, luta e consegue

2.1.06

Feliz dia novo

_Bom dia moço. Tudo em ordem?

_Bom dia. Tudo normal. Haveria motivo para desordem?

_Nenhum. A não ser pelo fato da certeza de que nem tudo que está em paz é pacífico.

_Como assim?

_Perceba como existe um burburinho crescente que vem com o silêncio. Sinta na aparente calmaria do oceano a profusão de ondas prestes a arrebentar sua força na areia. Se apenas fitarmos o superficial e palpável, pouco perceberemos do real valor das imagens que nos são ofertadas.

_Mas não tenho tempo para tanto esforço, o tempo não deixa de correr enquanto filosofo sobre o mundo.

_E quanto tempo tem além deste momento que agora consome? Quanto excesso ainda existe para desperdiçar com esta correria despropositada e sem motivo? O que lhe faz pensar que sua sobra é maior que aquilo que agora já lhe falta?

_Justo por não saber quanto disponho é que devo acelerar-me. Quem sabe quando não mais estarei aqui?

_Já se perguntou se está mesmo aqui? Se aqui é onde quer estar? E se positiva for sua resposta se lhe apraz o bastante o que és? E se de negativa forma responder, por que ainda não parou para se mover? Atinou para o quanto se ganha quando simplesmente não se perde?

_E por que esta sanha desesperada em conquistar e vencer se não preciso de mais batalhas. A vida já é muito dura para que eu tenha que enfrentar a todos. Na quietude de minha pouca ambição os dias passam e eu sobrevivo calmo, manso e imperceptível à mira alheia. Deveria expor-me pelo prazer de apenas vencer?

_Deveria vencer apenas por se expor. Ganhar de si próprio a cada pequena grande atitude. Deixar de imaginar que o mundo lhe admira como presa e descobrir pela definitiva vez que o domínio a ser exercido é aquele voltado para si. Acreditar na idéia simplória e grandiosa que poucos entendem. Espalhar pelo mundo a consciência que libertar é o caminho mais correto. Embora seja doloroso e nebuloso muitas vezes. Aprender pelo amor e não pela dor, pois a capacidade de fazer feliz é incontavelmente maior que a facilidade de errar. Segurar o ímpeto destrutivo e grosseiro que se esvai com a mobilidade dos ventos em tempestade. Exercitar um ato chamado perdão, mas na sua forma mais pura; que é ser capaz de ensinar antes que seu próximo erre e esteja sempre apto a aceitar que um melhor e maior que nós pode estar esperando na soleira de nossa porta esperando a resposta de um simples bom dia.

_É você aquele homem que esteve aqui muitos dias deste ano?

_Não, sou aquele que esteve aqui todo santo dia do ano que se passou. Que podia ter perdido a esperança de uma resposta. Que por vezes esteve aqui para dar um boa noite. Que não queria nada além de ser percebido, notado, tratado como igual. E nunca estive aqui travestido nas formas que nos causam comoção. Sempre trajei a roupa da igualdade e nem assim fui correspondido. Cometi a sutileza de usar as mesmas cores do seu sapato, o feitio de sua blusa e, ainda assim, quase idêntico, lhe fui indiferente.

_E por que então não desistiu? Para que tanta insistência com alguém que sequer nota sinais tão gritantes? O que tenho eu de tão especial para compartilhar seu tempo comigo?

_É o meu futuro rapaz. Veja como uma simples palavra demonstra que já aprendeu. Exatamente isso, compartilhar o tempo. E enquanto estiveres nesta terra de dor e injustiça, compartilhe seu amor, seu calor, sua vida. Dê como se fosse impossível fazer outra coisa, troque com o mundo que lhe cerca como se fosse a ultima atitude de sua breve existência, respire o ânimo da natureza que pode ser rude e transforme tudo a sua volta com seu esforço. Pois de nada adiantaria berrar às aves sabendo que elas, mesmo cantando aos seus ouvidos, nada lhe diriam. Vim porque para eu perpetuar precisava compartilhar com você e, como você mesmo percebeu, não perdi um segundo sequer.

_E deixou de fazer tudo que precisava para cumprir com sua missão? Não trabalha, não tem família? Não leva as crianças para escola?

_Faço tudo isso. As crianças, a propósito, estão no carro esperando para ir à escola. Minha esposa já saiu para trabalhar e o dia será pesado, com muito trabalho e responsabilidades e feliz, justo por isso.

_Você saiu de longe, me vigiou durante um ano todo? Não estou entendendo tudo isso!

_Sou seu vizinho, moro aqui faz um ano e resolvi lhe dar um bom dia. Depois da minha família, que vive comigo, você é a pessoa mais próxima. Sei até qual é a pizza que mais gosta. Queria somente poder passar a idéia que é possível ser notado, fazer parte e conviver, sem ser um fardo, um adversário ou um mero desconhecido. E isso tudo começou com um singelo bom dia.

_O que me fez responder hoje?

_Foi a pergunta que lhe fiz. Se estava tudo em ordem. É estranho como temos medo de parecer imperfeitos e frágeis. Quando apenas toquei sua suposta perfeição com uma pergunta normal, foi o bastante para que reagisse e retrucasse em tom de defesa. Neste momento, sem que fosse manifestada qualquer intenção da minha parte, você postou-se defensivamente e cedeu muito do tempo que supôs não ter. Por falar nisso, não está atrasado pra seu trabalho.

¬Sim, mas hoje nada supera o que ganhei em tão pouco tempo.

¬Verdade, dez minutos ou menos, que você acreditava que não tinha. Um abraço forte, e boa e muita sorte. E lembre-se que ela é diretamente proporcional ao desuso que fazemos dela. Assim como o destino e o acaso são meras desculpas para nossa falta de coragem, escusas toscas para nossa completa inaptidão para o sucesso. Sejamos fortes, grandes, bons e poderosos. Magnânimos na arte de conseguir e nem por isso deixar de querer e valorizar o que se tem. Que saibamos sempre medir o peso de nossos cestos em relação as sementes que plantamos com suor e afinco e não ao pomar alheio. E que sejamos humildes ao perguntar ao próximo, como fazer para colher tantos e tão belos frutos, mesmo sem dizer uma só palavra. Parto agora, a família espera e o dia é grande. Felicidades

_Idem! Obrigado! E antes que eu me esqueça, qual o seu nome?

_Não rotule as pessoas pelo que elas dizem de si próprias. Reconheça-as e as chame por aquilo que sente delas. Adeus!

_Mas para onde vai?

_Eu não, você! Seja pleno 2006!



Um feliz Ano Novo a todas as pessoas que fazem parte da minha vida. Um 2006 repleto e pleno de realizações e um bom dia, todo dia. Para que sejamos, todos nós, sempre, melhores. Que o amor invada a humanidade e que sejamos arrebatados pela vontade que move a História. Façamos nossa história e saibamos receber ajuda sempre que ela for precisa e necessária. E que saibamos doá-la, pois sabê-la egoisticamente é sim o maior desperdício.

Beijo em todos. Vamos que vamos!!

Sandro Costa, o Ambidestro