14.6.06

Perceptivo

Porque as pessoas deveriam entender
Que as vontades não podem ser escutadas
Merecem ser sentidas
Sem ter que tomar emprestado o caráter físico do pedido

É maravilhoso adivinhar o outro

Antecipar de forma natural
Um ato proporcionador de felicidade
Atitudes simples que nos tornam especiais
Detalhes que nos fazem imprescindíveis

Segredos são as mais intimas publicidades

Palavras que trocamos em silencio
Olhares que miram à saudade
Suspiros que remontam seu corpo
Sons que tocam a pele e arrepiam

Sua presença onde quer que você esteja

Independente de marco ou comemoração
Quero festejar sempre
A grandiosidade inexplicável
Que é amar e ser amado

Por, para e com você

12.5.06

Alternativa

As músicas parecem estar calando
Deve ser a esperança cedendo lugar à verdade
A certeza de perder começa a latejar mais constante
Já penso no jeito de tentar aceitar

Que eu te deixe partir pra sempre

Dolorido novamente
Só que desta vez não será apenas tentativa
Conseguirei definitivamente
Irá doer como nunca

Mas será de única vez

Conseguirei sofrer como poucos
Abrirei mão de muito
Como recompensa terei a mim novamente
Completo, solitário

Como nunca deixei de ser

Voltarei ao estado de hermetismo de que tanto gosto
Trancado, intocável, impenetrável
Sisudo para as alegrias breves
Ausente aos comburentes que se vão num mero sopro

Surdo às notas que noticiam nada

Passei por isto antes e fugi
Desta vez encararei
Sinto ser necessário mais este tempo
Ele novamente

Identicamente, sem minha culpa

Vista grossa para coisas demais
Fingi não enxergar o escancarado a minha frente
Agora já incomoda
Sentir o limite do próximo

Que não pulsa, expulsa: me repulsa

Só quis amar este tempo todo
Doei, entreguei, compartilhei
Desfiz de mim em prol do outro
Fiz tudo que devia fazer

Porém, ao amar, não se deve nada

Tudo é o espontâneo
Obrigação e ingratidão são incompatíveis com o nobre verbo
Ele não pede nada em troca
Apenas pessoas, duas

E não somos, pois

Infelizmente não seremos jamais
Certos passos nos tiram completamente da rota
Desvirtuam nossa jornada
Aniquilam certos destinos

As decisões mais devastadoras são sempre conscientes

Estou prestes a tomar uma delas
Gigantesca, atormentadora
Não tenho medo de colocar-me pedindo ajuda
Prezo a possibilidade de não recebê-la

Apenas proíbo-me ficar parado

Meu tempo de fazer findou-se
Qualquer apêndice é mero exaurimento
Precisamos de um passo seu
Daqueles devastadores

E então, sabe o que está fazendo?

Afirmativas sucessivas seriam bem vindas
Para que a duvida fosse apenas salva guarda
Ferramenta da heresia
Luxo de quem quer apenas ratificar

Vitória da perseverança sobre a teimosia

13.4.06

Meio assim ...

Luto por um tempo
Onde as noites não serão longas por sua ausência,
Mas curtas, pois a eternidade é pouca quando ao seu lado
Procuro um mastro para amarrar meus ponteiros
Norte de meus delírios perdidos
Que ao mesmo tempo me aponte você
Perco o rumo num escuro raso
Em que náufrago, afogo minhas dores profundas
Sutis pesares de uma angústia suave
Brandindo abrupta na profundeza de minha face exposta
Encarnada nas entranhas de um parto que não resolve
Saída de um retorno que não devolve
Sequer fragmento do meu lamento derramado

Vem suspiro como se vento fosse
Venha vento que com suspirar levasse
Qualquer lembrança que me sustentasse

Em ruína breve a essência da saudade
Compõe-se em arrimos basilares
Soerguendo arremedos de desfaçatez
Na vontade unânime e uníssona de conquista e domínio
Aquela pelo respeito e admiração
Este pela liberdade eterna que planifica e iguala
Mantendo a única diferença aceita por aqueles que comungam
O dom de conviver no estado pleno e denso; intenso
Pois amar, além de arder e doer é mutante e tenro
Faz o mestre retroceder e aprender
Transforma soberba em humildade
Doa à maldade a mais profunda nulidade

As palavras dizem exatamente o que o silêncio promete
Descumprem-se todos os destinos
Desatinos passam a ser dogmas inalienáveis

Tudo ao fim, enfim, não passa de mero instante
Novo que é exatamente como era antes
Estático que cisma em seguir adiante
Defunto que não se impede que levante
Idéia viva, fixa, sem centro: mirabolante
Errante em qualquer ser que se mostre vivo
Leve demais para ser constante
Muito denso para ser bastante
Sentimento de valor físico irrelevante
Filtro de vida purificante
E antes que desavisado algum se encante
Pequeno aviso intrigante:

Amar é sem conceito
Sem preconceito:
Edificante.

22.3.06

Concordo

Justamente por que
Há horas em que urge
Fazer a volta, contornar o local
Bordar o destino com os jardins que ele merece

Embora na maioria das vezes ele o peça

Seguir em frente pode ser fatal
Orgulho em retroceder
Pode levar à inércia
Ficar parado, matará a vida

Volte atrás

Não para fazer o mesmo
Repetir acertos também é errar
Pois perdemos tempo
Divindade que nos consome e sempre escapa

Torne o caminho de volta uma nova ida

Que lhe desvie o abismo intransponível
Sem desvirtuar-lhe o ponto de chegada
Fazer da maior distancia um atalho
É arte conhecida por poucos

Depende de quanto se dispõe a perder para ganhar

Preferências são rumos sem dor
Escolhas pela facilidade circunscrita
Apaixonante e fácil
Isenta de pecados e proibições

Porem, tende à certeza do marasmo

Toda vez que for muito fácil
Queira mais, anseie maior: ambicione
Ou simplesmente perceba
Que o algo já lhe pertence ou não é o que se quer

Fuja do imediatismo que despersonifica a conquista

Diante do abismo passado que antes o paralisava
Remonte o trajeto que percorreu até aqui
Lembre-se que poderia estar lá em cima
Inerte, ileso: sonhando simplesmente

Fossilizado por um tolo medo

De pensar-se retrógrado e menor
Por ser incapaz de transpor o impossível
Quando o oponente consumar-se invencível
Seja inteligente

Decida não enfrentá-lo

Pois a vida pode até ser construída com sonhos não vividos
Desvirtuada e triste devido a escolhas infelizes
A lembrança entretanto
Nunca é composta por passagens mortas

Ela pulsa, arde e vibra; involuntariamente

Aguarde o momento certo
Torne-se colossal, intransponível
E se mesmo com fenomenal esforço
Derrotar aquele inimigo continuar impossível

Volte, pois só nós mesmos estamos em todos os nossos caminhos

7.3.06

Datas

Obrigado por este dia ter acontecido
Pela vida que impôs a minha vida
Transformando mero caminhar
Numa marcha firme rumo ao destino

Feito com minhas próprias vontades

O que antes parecia atemporal e infindável
Contornou-se de efêmera velocidade
Bordando meus desejos recém nascidos
Vejo um homem que aprendeu há pouco o caminhar

O incentivo é que faz viver

Foi-se o tempo de passar por ele
A convivência branda e gratificante
Agora é brusca e lancinante
Cada momento que se esvai é como sangue

Doído e querido ao ser derramado

Felicidade por estar impregnado de felicidade
Grávido de um sentimento maravilhoso
Que não se basta nos adjetivos que conheço
Transcendendo minhas antigas certezas

Transformando tudo em simples nada

Gestação de um futuro cada vez mais próximo
Sensível aos sentidos do tato, olfato, paladar e audição
Estranhamente não o vejo
Entretanto isto se faz desimportante

O sentir não precisa de luz aos olhos para existir

Basta o querer; o reconhecimento do outro
O mínimo que se propõe é vontade
O máximo que se busca é liberdade
Todo o resto é mera composição

Deste sonho que me assola

Ainda busco o dia
Em que neste mesmo dia
Poderei acordá-la com um beijo
Dizendo baixo em seu pé de ouvido:

Parabéns, criatura! Eu amo você

27.2.06

Demora não

A saudade me perturba.
Sua falta quase me derrota.
Mas a possibilidade de vencer e a certeza de te ver
Fazem querer-te ainda mais.

Amo você

30.1.06

Coisa

Não há, realmente, nada como amar você
Esse tudo que parece sempre incompleto
Este longe que se sente mesmo perto
Plausível erro de quem vislumbra o certo

Por mais certeza que se tenha em não saber o que se faz

E lho sinto assim
Uma coisa que chega e parece que sempre se vai
Vazio que preenche
Concretude que com o brandir da saudade se esvai

Eterna percepção daquilo que não se define

São inúmeras as definições
Porém geralmente indefinidas
Pois que não postulam menor regra
De tão desregrado que se apresenta

Estranha esta intimidade com este total desconhecido

Escorrega pelos braços
Por vezes pesa, quase insuportável
Por outras escapa de tão volátil; maleável
Ainda assim, extremamente nosso, cismamos em dá-lo

Como se disponível fosse; um simples regalo

Abençoado como o mais maldito dos regenerados
Cultuado, venerado, adorado
Outrossim submisso, renegado, acossado
Indistintamente perseguido, objetivado

Estado de perfeição uníssono almejado

Um pulsar desesperado que te busca em cada canto
Motivado por paixões e desencantos
Regado ao suor do esforço
Ao desalento, ou alegrar dos prantos

Coisa que te quero e de ti espero em tanto

Descobri não ser tão auto-suficiente
Tampouco onipresente e uni subsistente
É coisa dada ao bom vício da concorrência
Da necessidade do corpo presente

Atitude de querer constantemente

Por isso não demore
Não faça com que por tristeza eu chore
Venha com sua peculiar e plural fome
Conserve-me e me devore

Esqueça os olhos e me olhe

Com o sentir da lembrança
Com o querer da esperança
Com a dúvida da segurança
Com a mão de quem alcança

Agitação incontinenti que amansa

Sai de ti e vem
Dê-se a si e me tem
Seja meu eterno alguém
Saiba-se não viver sem

Pense ser impossível e iremos além

Das estrelas que nos adornam
Da lua que remete ao que foi
Da infinitude do céu que escorre límpido
Do brilho do sol que ofusca quando vem

Sejamos mais do que o mundo que se oferece

E ao construir nossa morada
Sem trincheiras ou brigadas
Quero apenas o frescor das madrugadas
Nosso reflexo nas águas iluminadas

Nossa calma nas tardes descansadas

Tenhamos teto no sossego
Posse no desapego
Prisão na eterna e indisponível liberdade
Pois apenas aquele capaz de nos fazer livre

Naturalmente ama de verdade

16.1.06

Físico

Não há noção ainda do percorrido
E desinteressa este que não se pode mudar
Tem-se, de fato, a impressão sincera e real
Da proximidade com a chegada tão esperada

Engana-se por completo quem almeja o mero fim

Este será apenas meio
Ferramenta de um desejo maior
Um patamar seguro
De onde se pode avistar mais ao longe e respirar

É infinito o céu que se contempla

Ele chama como se urgente fosse
Conquistar seu azul e seu cinza peculiar
Agrada às vistas com o deslumbre do horizonte
Enche o peito de lágrimas quando torrencial chove

Inundando o querer de esperança

Mas há mudança neste combustível
O que antes era como uma entidade intocável, quase santo
Hoje é devasso e escravo das minhas atitudes
Uma prostituta virgem movida ao prazer das minhas conquistas

Agora acredito na concretude de meus sonhos

As tentativas estão mais consistentes
Os erros cada vez mais previsíveis, evitáveis: consumíveis
A distância, embora insabida é perceptível
Quase um objeto a se colocar no bolso

Falta realmente muito pouco

O esforço é proporcional
Assim como a velocidade dos tempos idos
Pois tempo é uma sensação e não uma coisa
Quando ocupamo-nos prazerosamente ele some

Insistir na contrariedade só traz angústia

E tudo se paralisa
O mundo pára
O peso pesa
E o pesar do mundo ampara

Todas as suas desculpas

O que se tem afinal
É um somatório de dúvidas e curvas
A cada volta enterramo-nos mais e mais
Inexiste a sensação de chão

Apenas um vôo livre e desgovernado

Anarquia nunca resultou em nada
Desde os primórdios
Existe um conceito
Que ajusta a vida em comum

Potencial é realmente nada sem controle

O mais importante deles
O exercido sobre nós mesmos
Deve ser administrado, treinado: dominado
Precisa, necessita e deve ser corriqueiro

Saber-se por inteiro é condição para dar-se e doar-se

Desprendimento não equivale a dação
Extrema agudeza de saber
Tem aquele que consegue desfazer de si
Para encontrar-se no outro

Religião do bem comum

Comungue a um lugar chamado nós
Peça a um deus chamado eu
Descubra um caminho chamado tempo
Seja uma vitória chamada resultado

Se esforce, vença e vá,

Pois sucesso é um mérito seu
Aceite quando conseguir êxito
Viva intenso este momento soberano
Só você sabe o quanto de sua paz está condensada ali

Expanda todas as suas virtudes

Só não reclame daquilo que não pode ter
Das coisas que não fez por onde conseguir
Tenhamos consciência que tentar é permitido
Mas que fazer tudo ao mesmo tempo é proibitivo

Escolhe, define, luta e consegue

2.1.06

Feliz dia novo

_Bom dia moço. Tudo em ordem?

_Bom dia. Tudo normal. Haveria motivo para desordem?

_Nenhum. A não ser pelo fato da certeza de que nem tudo que está em paz é pacífico.

_Como assim?

_Perceba como existe um burburinho crescente que vem com o silêncio. Sinta na aparente calmaria do oceano a profusão de ondas prestes a arrebentar sua força na areia. Se apenas fitarmos o superficial e palpável, pouco perceberemos do real valor das imagens que nos são ofertadas.

_Mas não tenho tempo para tanto esforço, o tempo não deixa de correr enquanto filosofo sobre o mundo.

_E quanto tempo tem além deste momento que agora consome? Quanto excesso ainda existe para desperdiçar com esta correria despropositada e sem motivo? O que lhe faz pensar que sua sobra é maior que aquilo que agora já lhe falta?

_Justo por não saber quanto disponho é que devo acelerar-me. Quem sabe quando não mais estarei aqui?

_Já se perguntou se está mesmo aqui? Se aqui é onde quer estar? E se positiva for sua resposta se lhe apraz o bastante o que és? E se de negativa forma responder, por que ainda não parou para se mover? Atinou para o quanto se ganha quando simplesmente não se perde?

_E por que esta sanha desesperada em conquistar e vencer se não preciso de mais batalhas. A vida já é muito dura para que eu tenha que enfrentar a todos. Na quietude de minha pouca ambição os dias passam e eu sobrevivo calmo, manso e imperceptível à mira alheia. Deveria expor-me pelo prazer de apenas vencer?

_Deveria vencer apenas por se expor. Ganhar de si próprio a cada pequena grande atitude. Deixar de imaginar que o mundo lhe admira como presa e descobrir pela definitiva vez que o domínio a ser exercido é aquele voltado para si. Acreditar na idéia simplória e grandiosa que poucos entendem. Espalhar pelo mundo a consciência que libertar é o caminho mais correto. Embora seja doloroso e nebuloso muitas vezes. Aprender pelo amor e não pela dor, pois a capacidade de fazer feliz é incontavelmente maior que a facilidade de errar. Segurar o ímpeto destrutivo e grosseiro que se esvai com a mobilidade dos ventos em tempestade. Exercitar um ato chamado perdão, mas na sua forma mais pura; que é ser capaz de ensinar antes que seu próximo erre e esteja sempre apto a aceitar que um melhor e maior que nós pode estar esperando na soleira de nossa porta esperando a resposta de um simples bom dia.

_É você aquele homem que esteve aqui muitos dias deste ano?

_Não, sou aquele que esteve aqui todo santo dia do ano que se passou. Que podia ter perdido a esperança de uma resposta. Que por vezes esteve aqui para dar um boa noite. Que não queria nada além de ser percebido, notado, tratado como igual. E nunca estive aqui travestido nas formas que nos causam comoção. Sempre trajei a roupa da igualdade e nem assim fui correspondido. Cometi a sutileza de usar as mesmas cores do seu sapato, o feitio de sua blusa e, ainda assim, quase idêntico, lhe fui indiferente.

_E por que então não desistiu? Para que tanta insistência com alguém que sequer nota sinais tão gritantes? O que tenho eu de tão especial para compartilhar seu tempo comigo?

_É o meu futuro rapaz. Veja como uma simples palavra demonstra que já aprendeu. Exatamente isso, compartilhar o tempo. E enquanto estiveres nesta terra de dor e injustiça, compartilhe seu amor, seu calor, sua vida. Dê como se fosse impossível fazer outra coisa, troque com o mundo que lhe cerca como se fosse a ultima atitude de sua breve existência, respire o ânimo da natureza que pode ser rude e transforme tudo a sua volta com seu esforço. Pois de nada adiantaria berrar às aves sabendo que elas, mesmo cantando aos seus ouvidos, nada lhe diriam. Vim porque para eu perpetuar precisava compartilhar com você e, como você mesmo percebeu, não perdi um segundo sequer.

_E deixou de fazer tudo que precisava para cumprir com sua missão? Não trabalha, não tem família? Não leva as crianças para escola?

_Faço tudo isso. As crianças, a propósito, estão no carro esperando para ir à escola. Minha esposa já saiu para trabalhar e o dia será pesado, com muito trabalho e responsabilidades e feliz, justo por isso.

_Você saiu de longe, me vigiou durante um ano todo? Não estou entendendo tudo isso!

_Sou seu vizinho, moro aqui faz um ano e resolvi lhe dar um bom dia. Depois da minha família, que vive comigo, você é a pessoa mais próxima. Sei até qual é a pizza que mais gosta. Queria somente poder passar a idéia que é possível ser notado, fazer parte e conviver, sem ser um fardo, um adversário ou um mero desconhecido. E isso tudo começou com um singelo bom dia.

_O que me fez responder hoje?

_Foi a pergunta que lhe fiz. Se estava tudo em ordem. É estranho como temos medo de parecer imperfeitos e frágeis. Quando apenas toquei sua suposta perfeição com uma pergunta normal, foi o bastante para que reagisse e retrucasse em tom de defesa. Neste momento, sem que fosse manifestada qualquer intenção da minha parte, você postou-se defensivamente e cedeu muito do tempo que supôs não ter. Por falar nisso, não está atrasado pra seu trabalho.

¬Sim, mas hoje nada supera o que ganhei em tão pouco tempo.

¬Verdade, dez minutos ou menos, que você acreditava que não tinha. Um abraço forte, e boa e muita sorte. E lembre-se que ela é diretamente proporcional ao desuso que fazemos dela. Assim como o destino e o acaso são meras desculpas para nossa falta de coragem, escusas toscas para nossa completa inaptidão para o sucesso. Sejamos fortes, grandes, bons e poderosos. Magnânimos na arte de conseguir e nem por isso deixar de querer e valorizar o que se tem. Que saibamos sempre medir o peso de nossos cestos em relação as sementes que plantamos com suor e afinco e não ao pomar alheio. E que sejamos humildes ao perguntar ao próximo, como fazer para colher tantos e tão belos frutos, mesmo sem dizer uma só palavra. Parto agora, a família espera e o dia é grande. Felicidades

_Idem! Obrigado! E antes que eu me esqueça, qual o seu nome?

_Não rotule as pessoas pelo que elas dizem de si próprias. Reconheça-as e as chame por aquilo que sente delas. Adeus!

_Mas para onde vai?

_Eu não, você! Seja pleno 2006!



Um feliz Ano Novo a todas as pessoas que fazem parte da minha vida. Um 2006 repleto e pleno de realizações e um bom dia, todo dia. Para que sejamos, todos nós, sempre, melhores. Que o amor invada a humanidade e que sejamos arrebatados pela vontade que move a História. Façamos nossa história e saibamos receber ajuda sempre que ela for precisa e necessária. E que saibamos doá-la, pois sabê-la egoisticamente é sim o maior desperdício.

Beijo em todos. Vamos que vamos!!

Sandro Costa, o Ambidestro

9.12.05

Intenção

Quando tudo lhe for silêncio
Simplesmente escute
Sua voz interior
O chamado de sua vontade

Absorva sua própria alma

Lhe sobrevindo o calor
Transpire calmamente
Contemple cada esforço
Gotejando sobre solo fértil

Seja semente de sua criação

Ao sinal dos sinos de novos tempos
Ouça cada badalar atenciosamente
Oriente-se pela vibração de sua essência
Equilíbrio advém do domínio das ondas sonoras

Arrebentando nas areias de seu corpo

Pois quando lhe saltar aos olhos a maior das verdades
Aceite que sua visão é finita e simples
Desaprenda a não querer entender
Aquilo que é incontestável

Somos felicidade em potencial

Atravesse agora os campos fartos, vastos, castos
Macule de benfeitorias os frutos de seus esforços
Estenda mãos desejantes e quentes
Transforme cada dia num divino presente

Dê atenção aos mínimos detalhes

Também aos grandes
Que pelo porte são coisas
Mas não são objetos
Descartáveis, desprezíveis; previsíveis

Reconhecer valor é expor afeto

Abramo-nos para o mundo
Que vá embora esta mania torpe
De nos mantermos intocados
Deixemo-nos infectar pela pureza

Residente no amor que cerca a tudo

Então, neste momento, enverede pela sinestesia
Deixe arrepiar o imo
Esqueça nossas ridículas armas, trilhas; armadilhas
Que murcham nossa vivacidade

Não há vergonha em ser e permanecer feliz

E quando parecer não mais caber em si
Use-se a seu favor
Exacerbe, abunde, transborde
Seja maior que um dia supôs não poder ser

Viva completa e plenamente

28.11.05

Coisas minhas

Vai embora rapaz
Vai ver o dia morrer pra ver se você renasce
Aproveita a falta de compromisso e comprometa-se com você
Diga a si próprio que é impossível o possível não acontecer

Permita permitir-se viver.

Erga-se como quem irá dominar o mundo
Cheio de idéias
Repleto de vontades e novidades
Voraz na semeadura de bondade

Toma cada lacuna e as invade

Preenche este espaço sem dono
Com um bom punhado do seu ser
Fertiliza os corpos inócuos do caminho
Embrenhe de sagacidade a inamovibilidade do mundo

Faz da inércia combustível do movimento

Seja tempero dos ventos sem direção
Perceba-se em cada gota de chuva que tocar o solo
Responsabilize-se por cada nova semente que germinar
Sinta a maravilhosa força divina de ser pai

Faça-se mais que aquilo que supôs ser limite

Limite-se a não conhecer pontos finais
Portos seguros
Tormentas intransponíveis
Diga a todos a verdade maior:

Eu sou aquele que quer

Dê alma, ânimo, corpo a esta vontade
Tente de todas as formas conhecidas
Errando, lembre-se que nada finda
Use seu instinto

Pare e absorva o universo a sua volta

Reconheça que ele é seu residente
Está contido em você
É parte daquilo que desconhece de si
Um pouco do muito que pode ser

Exploda em todas as direções

Fundamente seus cacos perfurantes
Soerga pilares poderosos
Saboreie a deliciosa sensação
De escutar o mundo por dentro

Reverbere neste interior que lhe prepara

Espere apenas até o momento certo
Quando estiver tudo confortável e tranqüilo
Sob extremo e estrito controle
Desestabilize a harmonia monótona

Seja caos e traga a paz

Porque ser diferente e melhor a cada instante
Não é sinônimo de insatisfação
É busca contínua por algo que nunca chega
Almejar permanecer melhor

Beira o perfeito

Não queira, portanto
Bastar-se na completude do que parece divino
Transgrida, agrida, combata
Sempre sincero, justo e honesto

Como todo inimigo declarado: seja fiel

Diga todas as vezes
A que veio afinal
Que exteriorizar sua missão
Torne-se hábito comum

Grite: vim para conseguir e conseguirei

Esqueça as ajudas e facilidades
Por mais exposto e próximo que o objetivo esteja
Cabe a ti enxerga-lo
Querer tocá-lo

Transforme-se no gestor da sua vida

Proíba-se entregar seu destino a outrem
Compreenda de forma inescusável
Que seu caminho nunca esteve pronto
Que a rota nunca foi previamente traçada

Seja engenheiro e ocupante de sua estrada

Se por ventura lhe sobrevier bonança
Aceite-a de braços fortes e abertos
Pois que a rasura de sua capacidade também chega
E far-se-á hora de aproveitar-se da tolerância

Daqueles que se puseram em seu caminho

Não querer ajuda
Difere completamente de não pedi-la
Caso não lhe notem em apuros
Seja humilde e capaz:peça

A vergonha é ante-sala do fracasso

Doutrine-se a fazer suas regras
Justamente para não tê-las
Quem ocupa sua vida com próprias ordens
Vive pleno e satisfeito, não obedece ninguém

Só o que está ou é vazio pode ser ocupado: preencha-se!

17.11.05

Feita em verso

Não precisa permissão
Aquele que nasceu com a liberdade
Para que tanta confissão
Se portadora do convite da vontade

Deseje apenas e seja aquilo que sonha

Arrombe as portas que sequer existem
Penetre fundo como fio fino em carne tesa
Amole o desejo que lateja imenso
Inunde no mais profundo devaneio

Semeie sua existência em nossa ausência

Permita-se ser tudo que sonha
Plante cada dia do seu futuro
Neste presente que parece torto
Mas é o mais perfeito de seus dias

Seu agora é sua eternidade

Viva intensamente
Pois não o terá logo à frente
Nunca mais em sua frágil existência
Será tão indestrutível quanto agora

Nem no mais completo dos teus virtuosos pensamentos

Transpire cada gota de suor
Por algo que realmente possa fazer
Chore toda sua alegria em colos adorados
Pois a tristeza não foi feita para compartilhar

Aprenda que há coisas muito nossas

Que de tão tuas
Deixam-lhe nua
Tão minhas
Que em ti me inclua

Que sejamos aquilo que o porquê conclua

Sendo dúvida seremos sempre atraentes
Teremos em nosso seio o anseio do descobrimento
Em nosso leito o desalento atento dos que não param
Chegando enfim, num fim que nunca chega

Resta sermos contínuo movimento

Desenrolando histórias
Nem sempre narrativas
Juntando em palavras por vezes mortas
O calor intenso de brasas vivas

Colorindo de desejo a palidez da saudade

Invasora voraz e astuta
Consumidora de nossas horas
Causadora de tantas lutas
Senhora da maior das permutas

Doce o encontro do querer com poder

Verbos inocentemente separados ao nascerem
Aprendem e ensinam de forma natural
Que a bruteza da simplicidade humana
É estupenda e farta de intrínsecas qualidades

Impagável o esforço monumental de uma criança

Dando seu primeiro e radical passo
Decidindo seu destino tão prematuramente
Repare a violência deste gesto
Paradigmático ato insano de todos nós

Mesmo mergulhados em desconhecimento optamos abraça-lo

Para sermos cada vez mais fortes
Cada minuto mais poderosos
A cada passo mais senhores de nós mesmos
Sempre mais experientes

Ainda assim completamente perdidos

No infinito de possibilidades que nos tomam a reboque
Empurrando e sinalizando em qualquer direção
Fica difícil mudar o rumo
Quando postamo-nos indefesos em braços seguros

Força alheia nos contém, não traz segurança

Com pés ao chão e cabeça aos céus
Fica facílimo enxergar
Os rumos que minha visão permite
Os possíveis pontos onde devo parar

Reparar, respirar; continuar

Pois do interminável e constante desejo
Vem o ânimo que me enverga
Flexibilizando a não maleabilidade
Das certezas que se quebram

Diante do menor senão adiante

Insista em conseguir
Acredite que desistir é provável
Mas que ser derrotado é muito mais louvável
Que a fuga de si mesmo

Escreva seus próprios versos

E quando for verso de outro alguém
Acredite que não é por bondade
Foi você quem mereceu as palavras
Não havendo nenhuma caridade

Apenas dei forma ao adorar de verdade

11.11.05

Um ano

Queria poder dar a notícia neste texto, nestas linhas, neste dia. Mas ainda não chegou a hora. Há exato um ano eu escrevia por achar que o impossível havia me derrotado, ou simplesmente vencido. Felizmente a tristeza foi passageira, como todas são.

Precisava de uma saída para eu mesmo. Um caminho pelo qual eu trilhasse sozinho, sentindo minha dor sem ter que compartilha-la com mais ninguém. Mais ninguém que não merecesse ou fizesse parte daquilo que eu estava passando no momento.

Procurei um meio de expurgar sentimentos que atormentaram minha cabeça de forma muito construtiva. Doeu muito passar por tudo que eu não queria. Ver o amor de a minha vida entregar-se à formalidade da falta de saída, da ausência de coragem, da despresença de ousadia. Respeitei, cada um tem seu limite, este definidor de coisas impossíveis.

Descobri que eu era menos forte, menos direto: desmotivado. Encontrei milhões de significados novos para palavras e sentimentos que pareciam esgotados ou exaustivamente batidos e monótonos pela experiência alheia e até própria. Mergulhei num universo inédito de nomes carregados de novos significados, de significantes embrenhados em vida e cores jamais sonhadas.

Briguei comigo mesmo infinitas ocasiões e ainda o faço, pois que a dúvida é mãe da inteligência e ficar parado sem sequer pensar no próximo movimento é dar aos demônios a paz que não se tem. Encorajei a mim mesmo, toda vez que supunha estar na pior das situações e lembrava que toda vez que eu cogitava não suportar, eu já havia pensado isto antes e havia superado aquele obstáculo.

Aprendi da forma boa, que despenhadeiros, abismos e montanhas são feitas para serem escaladas, transpostas e vencidas. Desafios são coisas a serem superadas e lembradas com alegria, por mostrarem que as cicatrizes são marcas reais daquilo que se opôs a nossa vontade.

Tenho momentos felizes e faço questão de expô-los. Tenho lembranças boas e ineditismos maravilhosos. Fiz amizades sólidas e saudosas como só este meio sabe fazer. Aprendi que aprender é importante, mas que ensinar é uma arte fina e sutil, que demanda tempo, coragem e treino. Ficou claro que tentar é o verbo mais poderoso do mundo desde que atrelado, apaixonado e carnalmente ligado ao verbo querer.

Lancei-me esporros homéricos e xinguei todos os palavrões que queria e podia para agredir minha teimosia nos momentos de inércia total. Sacudi-me muitas vezes com umas porradas na cara, mas nunca quis meu próprio mal. Veio à tona uma grande faceta do ser humano: amamos sentir dor e pena de nós mesmos. Um vício que pode se tornar letal quando dominamos o prazer que o mínimo de felicidade pode trazer quando nos metemos em buracos muito fundos e de paredes lisas. Daqueles que são quase inescaláveis.

Criei muitas palavras novas. Neologismei muitas vezes, como agora, brincando com o substantivo e fazendo dele um verbo que não existia. É esta capacidade de construir coisas e sentimentos e sentidos que consegui tocar com este blog, que passou de terapia ou coisa parecida, a um imenso prazer, um lugar onde eu exponho minhas vivências e passagens, meus desejos e anseios, minhas tentativas, minhas derrotas e vitórias.

Felizmente, consigo me ver em cada palavra sussurrada ou vociferada nestes versos de métrica torta e ímpar que pessoas maravilhosas passaram a gostar e mostrar interesse. Queria mesmo ser tudo aquilo que alguns consideram e, quem sabe, talvez até seja, mas é melhor que eu não saiba, para continuar querendo melhorar sempre.

Não estou me despedindo, ou dando um tempo do blog. Estou apenas marcando uma data que é especial para mim também. Neste 11 de novembro de 2005 comemoro um ano de história, e como em poucas em minha vida, construí algo totalmente meu, prazeroso e independente.

Fica uma lição neste tempo e algumas considerações que julgo valiosas. Saibamos querer, pois quando decidimos que atitude tomar, resta ao mundo à opção de nos contrariar e não de ofertar um caminho. Tentemos sempre, sabendo que a tentativa é a única coisa perfeita do mundo; foi feita para se buscar um movimento e basta-se nesta vontade. A tentativa não influi na qualidade do resultado, apenas faz com que o resultado aconteça, ou não, como esperado. Sejamos inteligentes, para que além de estarmos alegres, permaneçamos felizes. Estar alegre é efêmero demais para a felicidade que uma vida consome. Sintamos dor o quanto for possível, mas apenas para ficarmos cada vez mais fortes, pois no mundo há injustiça e ingratidão demais para que contribuamos com nossa mesquinhez e egoísmo.

E, por fim, amemos sempre. Como eu costumo dizer: o ser humano precisa de amor! Amem de graça. Sejamos ultra sinceros. Entreguemos a vida por momentos de amor sem ter que morrer por causa disso. Choremos e liquefaçamos em corpo e alma, em desejo e lágrimas, mas que tenhamos saudade e lembranças para que suspiremos vida a fora. A todos que fazem parte da minha vida, que me lêem e que vivem comigo, um beijo e um abraço verdadeiro, grato e completamente feliz.

Para você Criatura, tudo aquilo que quiser de mim. Amo você!

28.10.05

Inevitável

Tomara que seja mesmo
Um dom desses que se cultiva
Apenas por se estar vivo
Simplesmente por ser comum

Nada mais que habitualidade

Dizer que não se percebe seria falso
Sei que as palavras têm certa importância
Um quê de extravagância
E em momentos como o deste exato

Doses cavalares de ignorância

Motivos para uma explosão existem
Seria aproximar do ridículo
Usar comum justificativa
Prefiro o difícil exercício

De entender a posição alheia

Paciência é relacionada à ignorância
Quanto menos sei das razões alheias
Mais paciente permaneço
Quando consigo mostrar que entendo os motivos

Já não devo segurar

Bondade não significa submissão
É ser justo com erros próprios
Ser receptivo aos acertos dos outros
Manter-se inteligente para perceber sutilezas

Estar pronto para ser grosso

Quando pisarem no seu calo doído
Olhando na sua cara torcida
Com o hálito do propósito impregnando
Não tenha dúvidas

Parta para dentro

O abuso descarado e iminente
É convite ao revide
Trinque seus dentes com bastante raiva
Segure no pescoço do oponente

Parta-lhe a cara

Seja visceralmente incontrolável
Lute por seu território
Derrube aquele corpo inútil
Pise naquela garganta escrota

Exemplifique aquela velha e boa lei

Estes dois corpos não ocuparão o mesmo espaço
Nunca,
Jamais,
Nem fodendo

Pois não há amor

O ser humano precisa de amor
Ondas devastadoras de calor
Regado a bastante desejo
Vontade de consumir aos beijos

Destrua, então, este ser repugnante

Que teima em encher o saco
Falso, asqueroso, nojento e descartável
Ignóbil, tosco, podre, maldito
Infeliz, desgraçado, babaca

O verdadeiro merda

Quero que você vá
Para a puta que o pariu
Vai chamar sua mãe, aquela vaca
De amigão

Amigão é o caralho

Vem com esta voz mansa
Este jeito mole, falso
Ridículo e intragável feito um verme
Personificação do vazio mal intencionado

Um porra nenhuma ambulante

Com a nuvem carregada sobre a cabeça
Cheia de pensamentos e vontades tortas
Dispara sorrisos entre dentes amarelados
E olhares cinzentos, pesados, malvados

Louco por uma vaga na minha alegria

Que possa ser ocupada por sua dureza
Transmutada em sua aspereza rude
Na rouquidão desta garganta que pigarreia
Feliz ao perceber tristeza em outros corpos

Sinto pena de você, infeliz

Pois aquilo que é estado passageiro para mim
É condição inconteste para os da sua laia
Enquanto sou feliz por não estar triste
Ficas triste por estar feliz

Sorva a lama de sua construção desprezível
Seja o porco mor deste chiqueiro nauseabundo
Só não venha com seus braços e abraços
Pois sua sujeira é dos poucos entes que me desfaço

Mantenho meu interior limpo

Por mais que minhas vestes lhe digam quase nada
Dói notar
Que ao perceber-se em meu brilho simples
Sua alma rugosa chora invejosa

Deus perdoe você, amém!

13.10.05

Inflexivo

Sangra desgraçado
Arranca a face deste sorriso
Leva embora a verdade desta doce mentira
Naufraga nestes céus turbulentos

Inventa o caminho que lhe sobrevirá

Costura a pele com pontos grandiosos
Doloridos como a crença na vitória
Que esgota suas forças
Rebrotando vontades sequer tidas

Encare o inimaginável

Esmurre toda dúvida
Espere o vento que lhe fará combustão
Alimente este fogo com seu suspirar
Entregue aos profanos deuses sua carne pura

Morra outra vez

É o que faz a cada dia pois
Reinventar-se, renascer-se, retirar-se
De um mundo que não lhe regozija
Alijando-te da naturalidade do processo

Os pilares já não te sustentam

Houve alegria de certo
Mas ela finou-se, findou, cresceu
Transmutou-se e quase ninguém entendeu
Mostrou-se tão nova e simples que se perdeu

Pergunte ao si, se este é o eu

Resposta banal para um movimento crucificante
Que machuca, tortura, agonia; muda
Isto incomoda, irrita, destoa
Porém, de inevitável forma vem

Domando o ímpeto e criando realidades

Já não se lhe pertence mais
Decaiu seu próprio direito de ter-se
Perambula a esmo, esquálido, invalido: enfermo
Procurando um nada absurdo que inexiste

Pare de entregar sua vida

Admita que o você seja o eu
Esqueça o traste que um dia foi
Aceite o açoite deste que também morrerá
Foi exatamente pra isso que veio

Desapegue-se desta mania infame de encerrar-se imutável

És completamente transitório
Instável, inconstante; itinerante
Versátil, versado, versante
Indiscutivelmente mutante

Permita-se de derradeira vez

Note que sua história lhe pertence
Que sua vontade tem aliados
Inteligência e saúde proporcionam
A mudança que necessita existir

Acorde para o objetivo

Esqueça o medo, a dor, a crença
A força, o devaneio
O cansaço e a doença
Seja carrasco, sentenciado e sentença

Sem conseguir ser egoísta

Dome este bicho louco que ricocheteia em ti
Deixe-o explodir ao menos uma vez
Sinta a força que ferve em seu interior
Expila suas sementes ao sabor das tormentas

Veja-se nas ondas que arrebentam num lindo espetáculo

Forte, poderoso, barulhento e proposital
Insista em manter-se vivo afinal
Deseje, queira, ame
Aprenda que conseguir e vencer

São verbos de sua primeira pessoa

Continue aspirando aqueles inconhecidos horizontes
Ultrapasse os pontos antes inalcançáveis
Quando achar-se pensando que já é o suficiente
Lembre que isto já havia sido cogitado

Ensurdeça o mundo com seu silencio

Encha sua vida de brilho
Misture ao suar a lágrima da conquista
Argua-se se tem tudo que quer
Responda sempre que não

Pare de querer parar

Movimente-se,
Canse, descanse, dance
Ao som da sua própria música
Ritmada pelos solavancos de seu corpo

Pulsando desesperadamente

Jamais sossegue
Mesmo completamente estático
Dedique-se a criar o perfeito hábito
De criar vontades

Para mudar sua intima história

Que apesar de exclusivamente sua
Arrebanha personagens através do tempo
Sinta o prazer de ser o navegador destes mapas
Responsabilize-se pelo destino destes

Que confiam plenamente em ti

Dê-lhes carinho e os escute
Espalhe afeto e fale a todos
Seja sincero e escolha os mais necessitados
Seja amor e abrace o mundo

Seja você, mar que me inundo

4.10.05

Sons

Não dificulte
Pare de errar propositalmente
Deixamos de ser felizes
Por pura teimosia

Escute uma música boa

Viaje
Pense em lugares maravilhosos
Visite cada boa lembrança
Recorde como você foi capaz

E exercite apenas

Lute, ame, grite
Vá em frente
Fé em si deposite
Traga deus para o seu devido lugar

Mantenha-o dentro

Alimente-o
Trate-o com eterno carinho
Cuide-se
Ame-se

Seja verbo das suas ações

Cultive as boas
Semeie o vento
Para que as brisas levem
Sua bondade pelos arredores

Perfume o céu com sua cor

Ensine o que é ser bom
Chore ao contar a história
Emocione-se
Deixe vazar tudo que lhe transborda

Jamais se segure

Abunde
Exacerbe
Extrapole
Exorbite

Transcenda

Perpasse todo o caminho
Todos eles
Seja um deles
Profundamente clame

Por mais uns dias para viver

Que sua passagem, mesmo breve
Dure eternamente
Consiga ser único
Importe-se apenas em ser

Desimporta lembrar dos feitos; imperioso lembrar do autor

Continue simples
Cada vez mais puro
Limpo, verdadeiro; seguro
Absorva a responsabilidade

De conseguir fazer alguém feliz

Chore novamente
Se entregue
E quando lhe perguntarem
O motivo das lágrimas

Responda serem de alegria, fruto de amor

26.9.05

Pequena Verdade

Nunca é cedo o bastante
Quando é tarde demais
Por mais pueril que seja a madrugada
É noite eterna quando já se foi

E a volta nunca volta

Há tempo para se fazer outra vez
Possível repetir mesmos erros
Tentar de diversificada forma
Mas acertar é sempre inédito

A eficácia elimina a mesmice

Desrotinifica atitudes simples
Torna cada gesto único
Potencializa qualquer atitude
Requerendo atenção imensa

Desastres nascem instantaneamente

Aquela palavra ríspida
O gesto não meditado
A falta de tato
O excesso de sensibilidade

Atrocidades são sempre banais aos que praticam

Reverter certos atos é impossível
Conseguimos apenas reduzir o impacto
A bofetada já foi dada, porém
Não será esquecida

Retirar a culpa não elimina o verbo

Engraçado pensar assim
Mas só sabemos o doer
No exato momento em que o sentimos
Não dói no físico quando recordamos

Lembrar sim, traz sentimentos

Transporta-nos a um estado vivido
Remonta certa particularização de nosso real
Emergindo angústias
Nó no peito que quem lembra sabe:

Dói só de lembrar

Quando for errar
Seja completamente ignorante
Faça-o por puro desconhecimento
Tenha o que aprender com sua atitude

Não espezinhe quem você gosta

Agir por pura picardia é idiotice
Não existe vitória
Na derrota daquele
Que devia ser resguardado

Da nossa cruel capacidade de fazer sofrer

Atinja com sua ira
Apenas seus reais inimigos
Que felizmente existem
Sinceros como nuvens carregadas

Que por vezes relampejam e trovejam

Exclua seu amor de sua mira
Afine sua pontaria
Preserve a incolumidade e a paz
De quem optou por estar ao seu lado

Sujeito às suas intempéries

Saber da disposição alheia
Não é sinônimo de usurpação
Acreditar que pode acontecer
Não é convite ao merecimento

Antes de urrar silencie

Olhe a sua volta
Perceba se os que te circundam entenderão
Meça se valerá a pena discursar aos surdos
Ao perceber que estão vocês sozinhos

Abrace-a, para não ferir-lhe os ouvidos

Conduza seu calor no prazer do aconchego
Respire quente no interior do corpo dela
Acaricie aquele rosto magnífico
E após respirar levemente

Agradeça sem ter um aparente por que

Lembre-se que é bom fazer bem
Que na vida escolhemos alguém
Por quem vale a pena receber e dar
Uma vida que nos ensina constante

Não ser preciso sofrer para amar

19.9.05

Tecnologia

Hoje não caibo em mim
A saudade é maior que meus limites
Reside em cada canto do meu ser
Que é nada frente sua ausência

Suspiro insistentemente

Como se adiantar fosse
Como se o ar que ponho para fora
Abrisse espaço para você entrar
Mas você não vem

Aonde está você, assim tão transitória?

Por que não pára em um lugar conhecido
Por que não se mostra de um modo batido
Por que não me gritas sussurrando aos ouvidos
Por que esta falta neste eterno domingo

?

Sei todas as respostas
Perguntas que não são minhas
Vontades que são só nossas
Teimosas em não se acharem

Acho tudo e não me certifico de nada

O que quer que eu faça é sempre sem graça
Falta você, seu cheiro, seu jeito
Minha alegria que enternece
Sua vida que me aquece

Faltam verbos na primeira pessoa do nosso plural

Chuva fina a piorar tudo
Faz as pessoas se esconderem
Desfazendo minhas diminutas chances
De encontra-te por uma rua qualquer

Ninguém passeia nestes dias molhados

Exceto eu
Que choro por dentro diariamente
Encharcado de amor por todo instante
Vejo-me multiplicado quando, torrencialmente chove

Estado da natureza cuja beleza comove

Escuto nossas músicas e choro
Pois não tenho vergonha de amar
Tampouco pena de sofrer
Sinto cada instante, intenso, constante; amante

Quero ser mais que aquilo que presumo poder ser

Se perguntam o motivo de minha estranheza
É por que não me conhecem
Se percebem que não sorrio
É por que levei minha alegria pra junto de ti

Estou aqui o contrário do que sou em você

Sei da impossibilidade de estarmos juntos agora
Por isso troco a ansiedade da espera
Pela paciência da esperança
Suspiro outra vez

Para que eu me torne mais fácil de carregar

Nada me tira a vontade enfim
Necessito inspirar seu expirar
Aquecer no vapor de seu suor
Estar perto a ponto de mesclar

Dentro de ti é onde adoro permanecer

Me acolhe com calor
Incendeia com amor
Olha com fervor
Me inunda por favor!

Deixe-me ser o seu furor

Ainda é hoje, entretanto
Seu sentimento, expresso em linhas, é que me anima
Espero angustiado ele sinalizar
Esquisito e insano este inusitado ato

De ser mensagem em celular

14.9.05

Carta

Queria poder te mandar esta carta. Mas não sei seu endereço. Seria impossível que ela chegasse, enfim. Não será por isso que não irei fazê-la. Pelo contrário. Irei até o final. Para que eu possa reler finitas vezes, pois sei que volta. Recitá-la-ei, portanto, de tanto que lhe sei, quando retornares.

Tolice minha ater-me diante da falta de sua localização. Estás tão perto que sequer preciso escrever. Basta que eu pense, mudo e estático, para que te alcance. Não necessito mover um músculo para sentir-te por completo. Deixarei que minha saudade envolva você. Na eternidade de meus momentos, estarei tão perto que será difícil separarmo-nos.

Condição que já ocorre. Mesmo desunidos pela lacuna física que nos distancia, o sentimento que nos permeia, preenche qualquer distância. E te sinto em cada passo, em cada ato que pratico, em cada medo que desfaço, em cada lembrança que relança a esperança de ver seu rosto de criança na próxima esquina. A pureza de seu semblante simples que carrega meu juízo para além destas ruas. Deixando minhas vontades todas nuas, minhas verdades todas cruas e os dias com sóis e luas de tão completa a minha felicidade ao percebê-la.

Queria que se apagassem as estrelas nesta hora. Para que os incautos percebessem que elas apenas refletem o rutilo que vem de sua direção. Apropriando-se da propriedade intrínseca da sua personalidade brilhante e reluzente. Que você nem sente, quase que dormente. Os astros noturnos então te seguem e perseguem sua posição. Querem ser expectadores de sua linda passagem. Tentando aprender aquilo que não se ensina por não haver meio. O que não se da por não se possuir. Este seu jeito, seu acerto, seu defeito, sou eu quem nota. Talvez, quem sabe uma vez, ou outra, seja possível a ti, sentir o quanto te percebo; o como te concebo.

Por mais que pareça exagerado, desmedido e sem propósito é normal, sincero e real. Duvido que aquele verbo agregue todo o valor que lhe meço. Que caiba em quatro letras a imensidão de sentires que afloram ao som de seu corpo intenso. Desconheço a palavra, ou conjunto delas, que revele a descrição de sua nudez desfeita pelo meu toque, na mais completa escuridão, ausentes de visão. Quando seu contorno vem à mente pelos caminhos trilhados por meus dedos que te enxergam mudos, sem dizer sequer uma sílaba.

É para estas horas de estar sozinho que me preparo quando fico a te admirar. Por saber que estes momentos ainda são necessários é que lhe interiorizo. Percebo cada gesto. Sua voz, seu andar, seu perfume. Teu gosto fresco que me inunda o paladar e sempre desconcerta minha noção de certeza. Sua imparidade de beleza, sutil, ardil, febril, desarma qualquer defesa que eu nunca tive. Se te abrigo no meu abraço é por que preciso sabê-la por inteiro nestas temporadas de singular morada. Vives em minha existência e serei seu pelo tempo que a vida permitir.

Volte logo, amor da minha vida. Pense em mim, para que minha nuca esquente. Para que eu tenha as orelhas vermelhas de tanto você lembrar. E que não demore para que eu sinta seu cheiro pela escada. Para que eu me veja nos teus olhos marcados, esverdeados. Que eu possa em breve estar, mais uma vez, fluindo amor em sua boca.

Como já disse antes, ao seu lado não é lugar; é o único momento, em que existo feliz. Amo você, criatura!