16.8.05

Instrumental

Não consigo enxergar a dificuldade
Em se fazer desta maneira
De se entregar de forma verdadeira
Com o entusiasmo de como se fosse a primeira

Com a liberdade de uma brincadeira

Experimentar cada novo movimento
Que baila ao sabor do vento
Que se move pelo firmamento
Amanhecendo noite adentro

Olhar sorridente de contentamento

Aquele arrepiar gostoso
Brisa fina, toque saboroso
Carinho iniciado no pescoço
Descendo costa abaixo em contorno sinuoso

Sensação de prazer vultoso

Grandes são estas pequenas coisas
Escondidas em enormes detalhes
Essas fendas, estes entalhes
Ferro quente em que se malhe

Criando formas que por si valem

O esforço, o suor, o gosto
A lágrima do corpo
Todo o seu sacro exposto
Beleza infinda sem sequer um rosto

Apenas a vontade incrível de se fazer

Precisamos de calor
De contato, toque, tato: imediato
Trocar, receber, doar: compartilhar
Fazermos sós, mirando a nós

Simplesmente desesperar

No sentido de não querer troco
De não retribuição
De ser senhor de todos os atos
Ser sozinho em comunhão

Abrir a porta ao coração

Sem exibir ou emitir convites
Fazer com que passem por nós
Como se portais fossemos
Levando nossos viajantes

Ao mundo mais bonito

Desinteressa se perfeito
Melhor ou insubstituível
Necessário que estes emigrantes
Percebam sua natureza

Que se saibam portadores da riqueza

De sermos enfim eternos construtores
Fazedores de construções imensas
Tão atateis quanto densas
Não queira ser cobiçado

Almeje ser dividido

Prepare-se para o bem intraduzível
Que é ser querido, preferido
Ser mais um entre os tantos bons
Conter e ser contido

Saibamos não ser preteridos

Grite a si mesmo que precisamos de amor
Que ele se espalhe por todas as esferas
Demos carinho indiscriminadamente
Independente do bem que tenham nos feito

Pandóricos de coisas boas

Tenhamos em mente sempre que as ruins existem
Enfurnam-se em nosso ócio e persistem
Encontrando lugar em maus vícios
Na mistura de maldade e cobiça: malícia

Convivamos com ela então

Mas sejamos inteligentes
Informemo-nos sobre as atrocidades morais
O suficiente para reconhecê-las
Troquemos contato com elas o necessário para não exerce-las

Mergulhemos na lama pútrida e respiremos pureza

Acreditemos que mesmo sob escombros
Seguros como água em represa
Há força para romper barreiras
Dúvidas para se alcançar certezas

Existe amor, invasor de qualquer fortaleza

10.8.05

Anseio

A vida se encarregou de fazer a arte
Escreveu tudo com tinta muito colorida
Trouxe a brisa
Levou o sossego

Ficou a saudade

Toda vez que ela bate em minha porta
Pergunto-me se devo mesmo abrir
Se preciso desta rotina tão incerta
Que é não saber o momento depois do agora

De viver por derradeiro instante

Sou feito de vida
Que reside em meu corpo útil
Um sentimento vital
Que quer você sempre e mais

Amor que me faz único, imortal

Quero mais e sempre
Alucinado, descontrolado
Suplicante de sua especificidade
Louco por sua poesia única

Cego diante de sua aparição

Ofuscando as estrelas
Neste momento, tão pequenas
Fazendo da lua enorme
Detalhe quase despercebido

Frente sua grandiosidade

Vindoura e edificante
Pilar de uma vontade que transcende
Arrimo de verdade incontestável
Impossível aquilo que nos fará parar

Continuarei indefinidamente

Mas quero todas as definições
Preciso daqueles pontos finais, afinal
Não quero ser mais reticente
Desdesejo ser o último ponto de suas reticências

Serei a interrogação mais concreta de sua vida

Para que se pergunte sempre
O que somos definitivamente
E que se responda todas as vezes
Que somos perfeitos

Feitos um para o outro

4.8.05

Amplidão

Concede a graça do início dos tempos
Planta em minha natureza pura sua pureza
Infinita e simples como este que respiro
Ar denso, intenso e precioso

Indispensável como minha vontade

Ser despretensioso é no mínimo hipócrita
Não há aquele que nada pretende
Pois até tentar não querer
Já é uma enorme tentativa

Negar o tudo é infame e grandioso ato

Das variáveis que se apresentam
Algumas são importantes
O caminho em si
Transmutado e revestido por coragens e medos

Deriva de quesitos ainda maiores

Mire o ímpeto e repare
Tudo que te move lhe comove
Faz seu olhar queimar
Seu corpo arde e a paralisia incomoda

Inexplicavelmente pulamos abismo acima

Deixar o corpo cair simplesmente é fácil
Qualquer um tem descontrole sobre o corpo
Basta abrir mão das dificuldades
Embrenhando-se no marasmo do destino

Sempre calado, falso: cadafalso

Onde a humanidade se esvai
Buraco iluminado, atrativo
Convite quase irrecusável
Sedução constante, beirando o paraíso

Cheiro cru e instigante dos anjos

Abra a mente para a clareza dos fatos
Quanto mais alto o despenhadeiro
Mais fundo estaremos ao chegar lá em baixo
Gradação de solidão, tristeza, frio

Quanto menor seu espaço, maior o vazio

Almeje deparar-se com infinitas montanhas
Contemple sua magnitude
Quão indevassa é aquela estrutura
Postada a sua frente, realmente imóvel

Porém, completamente transponível

Desnecessário mover um músculo
Verter uma gota sequer de suor
Mudez completa, ausência de grunhidos
Inamovibilidade delirante

Basta querer

O mundo transforma-se no tabuleiro perfeito
O mestre do jogo imbuiu-se da arte de jogar
Admitiu a possível derrota
Conseguindo o que faltava para a fatídica vitória

Agora é preciso e precioso vencer

Não somos mais deuses
Tampouco vermes demoníacos incapazes
Apenas e completamente humanos
Que sentem na carne cada lança, cada lance

Geradores das atitudes mais lindas e perfeitas

Os seres celestiais mais belos e complexos
São reflexo de nossas atitudes
Enumere uma só exclusiva destes seres
E torne-se o único a conhecê-la

Pois ninguém é capaz dos atos que proferimos

Abra mão das tradições, dos costumes, dos ditames
Destrua todos os dogmas, leis e superstições
Corrompa o medo mais profundo de sua alma
Prostitua sua certeza mais decente

Adolesça a velhice de ser criança

Afie o instinto que lateja em suas entranhas vermelhas
Aguce o tino de seu faro que pulsa em músculos fortes
Contraia ao máximo cada pensamento de desistência
Decante a dor na leveza de suas lágrimas

Torne-se filtro daquilo que realmente merece

Suba cada vez mais alto e livre
Use toda força de suas pernas
Infle estes pulmões de energia
Pra poder berrar a todos os ventos ao chegar:

Consegui, pois quis estar neste lugar

Repare as mãos doídas e cortadas
Fixe-se nesta imagem absurda e completa
Lembre para o resto de sua vida
Que elas são apenas extremidades

De um ser capaz, pleno em vontade

Aprenda que seu momento do agora
Este mesmo, crível e verossímil
É somente a tangibilidade da imensidão que carregamos
Da vastidão chamada experiência

Que de tão grande, só se mostra em partes

Pedaços indissociáveis e indissolúveis
Do conjunto grandioso e harmônico que somos
Presente único e inigualável
Continente de amor e fé

Acredite-se, pois no mínimo, somos aquilo que é

2.8.05

29.7.05

Ao Amigo

Há algum tempo
Resolvi que as letras fariam um bem
Arrancando das profundezas
Mágoas e tristezas enormes

Estava absolutamente errado

Fariam muito mais
Mostrariam realidade
Um ser que residiu sempre em mim
Que esperava a linguagem certa de pedir

A liberdade arrebatadora e simples

Encontrei a forma da minha matéria
Descobri que somos muitos
Que existem outros, ainda bem
Do mesmo teor e quilate

Sim, somos diferentes e melhores

Acredite na força que propagamos
Levamos sentimento em coisas mortas
Palavras não são nada sem nossas vidas
Deixam de ser simples através de nossos conteúdos

Signos de nosso significado

Afinidades são construídas neste nicho ao qual pertencemos
Atitudes de respeito, admiração, deslumbramento
Deparo-me por vezes com perfeições estruturais
Outras, derreto-me diante a desregrada entrega total

Transparente que são as palavras

Existe um lugar destes que mexeu comigo
O primeiro contato foi bem no início da minha jornada
Caminhava buscando silencio próprio
Para que não se assustassem comigo

Por muito fui mesmo solitário

Não tive coragem de expressar-me
A beleza do local arrebatou
As figuras, as letras, as idéias
Tomaram conta de minha calma

Condensaram meu querer em grandiosas nuvens

Constantemente retorno a este local
O fundo cinza chumbo remete a chuva que vem
As letras, em branco, gotas que nos molham
Nós, comentando, trovões, trovejando

As fotos, destino entre a imensidão das águas

Espero que tenha acertado outra vez
Pois gostaria de retribuir realmente
Por ser tempestade constante
De coisa tão sua

Fazer parte de seu Dias de Chuva

21.7.05

Convívio

Há horas em que a vontade é arrebentar tudo
Destruir todas as fragilidades próprias
Fazer sucumbirem as defesas mais imponentes
Subjugar a prepotência alheia esmagadoramente

Esmigalhar qualquer atitude de resistência

A facilidade de agir inconsequentemente é deliciosa
Devastar, humilhar, espezinhar é fácil e natural
Tornar a paz um bem inalcançável, distante; errante
Exercício de ignorância plena, intensa, bestial

Tempo onde nem o mais celestial dos anjos reza

Por não ter sossego
Preocupado com a manutenção de sua vida
Retira as asas que agora pesam
Levanta os joelhos da calmaria segura e firme do solo

Exercitando o equilíbrio sobre pés frágeis, finos: franzinos

Como é densa a carne que levamos
O prazer proporcionado equivale à dor que ela suporta
Cada golpe, cada bofetada, cada espinho
O sorriso, o carinho, nosso vinho

Sentimos na vida o que passamos

Exacerba a concretude imediata e física
Infernalmente, nascemos sabendo
Invertidamente, uma analogia errada
Pois nem sempre o que dói é ruim ou mau

Afastamo-nos do instinto primário e salvador

Deixamos de ser animais e nos animalizamos
Absorvemos a sutileza da vida em comum
Tornando-nos sarcásticos, cáusticos, ácidos
Enchemo-nos de preconceitos

Convertendo-nos em enormes vazios

Cheios de nada até as grimpas
Envaidecidos por sermos apenas diferentes
Quando deveríamos ter nojo do que nos tornamos
Meros repetidores, receptores

Temos a obrigação de ser condutores

Convertendo a inimizade em entendimento
Levando a diante desejo de vida
Contrariando ensejos de alheia morte
Espalhar pensamentos de puro querer

Mas isso é diferente, incomum: perigoso

Imperceptível este desapegado
O quase santo que ama e peca
Com nome comum e simples
Perambulando entre os normais mortais

Sejamos nós, este pilar exemplificante

Traga para o seio de suas responsabilidades
Ser autor de lindos atos
Tão importantes quanto vulgares
Intente sua repetição aleatória e constante

Ensine como reproduzi-lo em série

Continue querendo destruir tudo de podre
Nefasto, vil, obtuso, abjeto
Mesquinho, pequeno, incorreto
Prime pela perfeição da eterna tentativa

Podemos ser melhores a cada instante

Irá sangrar e doer certamente
Perderemos carne e ganharemos alma
Trocaremos a ansiedade pela inexorável calma
Porém, sentiremos menos pavor

Deflagraremos um antes perdido mistério

Destilando amor do ódio
No aprendizado pelo bem frente à dor
Pois existe o retalho do frio
Mesmo sob intenso calor

Levemos a felicidade mais a sério

Pois somos muito a fazer
Por nos próprios, por quem merecer
Pelas mãos estendidas pelo caminho
Através de punhos cerrados a combater

Pelo prazer da arte que é conviver

15.7.05

Exposto

Espero alguém que finalmente chegue
Atravesso horas que gostaria que terminassem
Queria dias que em noite acabassem
Sem se arrastar pela madrugada replicante

Que nasce, floresce e renasce a cada dia

Gostaria de poder ligar para certo telefone
Escutar um alo despreocupado e sossegado
Com tempo livre e liberado
Sem espios ou olhares preocupados

Poder dizer: estou indo te buscar

Passear pela calçada de uma orla qualquer
De mãos dadas, dedos entrelaçados e calmos
Corpos que se mostram a quem quiser ver
Sem o tremular nervoso de quem não deve ser visto

Escancarar o que se sente livremente

Poder tomar um banho demorado
Para matar o tempo gostoso da espera
Manter-me sempre lindo e limpo
Por dentro, internamente; eternamente

Pois não sei quando irá chegar

Escolher aquela roupa que me deu
O perfume que seu olfato adora
Temperar a pele com o suor que sua língua aprecia
Esquentar o corpo para deixar a pele macia

Acariciar-te nua com o peso de meu corpo

Que não cansa de querer seu desejo
Cego à sua beleza
Justo por isso incansável
Em percorrer seus detalhes com meus dedos

Na proeza de saber cada seu detalhe

Configurando sua visão celestial e plena
Invasora sutil e permitida de minha esperança
Contraditória coma a derrota da vitória
Triste como a alegria fútil da volátil glória

De sermos juntos e sem constancia

Aspiro por sua permanência
Que não implica ser ininterrupta
Mas que carece em ser perene
Resistente ao mero até amanhã

Impávida aos domingos de lua que me atormentam a alma

Levando meu sossego num simples sopro
No brandir das folhas ao sabor do vento
Caindo ao menor esforço
Como se meus esforços fossem brotos

Tortos, rotos; incapazes perante seu outono

Que acinzenta minhas primaveras inférteis
Carente das águas neste verão seco
Desembocando num rio de inverno congelado
Atrofiado pelo gelo pirotécnico de meus alardes

Mudos, surdos, cegos, mas não covardes

Ainda ando por passos firmes
Joelhos justos e pernas fortes
Toco ao chão com aqueles por muitas vezes
A cabeça mira nuvens, condensando sorte

Esperando a bonança graciosa que me pertence

Corpo molhado, tempo ilhado
A terra faz-se lama e procura meus poros
Entra por fendas e feridas de pés descalços
Encontrando o calor na carne exposta das minhas frieiras

Portais sinalizadores do tempo de estrada

Tenho resistência para muito mais
Na mochila chamada paciência
Há uma carga indispensável
Aquilo que separa teimosia da perseverança

Toneladas essenciais de entendimento

Estive um dia do outro lado
Fui açoitado como escravo vadio
Minhas costas, largas e fortes
Devoradas pela sanha de um senhor impiedoso

O medo neutraliza a capacidade de sonhar

Escurece o brilho das pequenas e importantes coisas
Leva as asas que nos fazem voltar ao chão
E como balões vagamos sem destino, sem tino; desatino
Entregamos a vida ao reles contento do destino

Variável e desagradável em sua inutilidade

Fiz valer meu livre arbítrio
Decidi que suportaria errar
Compreendi que gostaria e seria humilde ao acertar
Polindo o orgulho com a delicadeza dos restauradores

Trazendo cor e forma a arte de ser meu próprio dono

Ser obra de minha matéria
Insumo de meu básico
História de minha lembrança
Saudade do sentir amor

Ser palavra de sua rima

11.7.05

Refletindo

Duvido realmente se todos têm noção do que fazem
Através das palavras, das atitudes
Dos conselhos que proferem e proliferam
Das virtudes cambetas que tanto veneram

Ignoro se tem certeza sobre o que querem

Tanta diferença pelo caminho
O movimento da boca é totalmente disforme
A compensação do corpo não combina
O equilíbrio ínfimo sequer rima

Continuam porém exercendo caridade

Como se estivesse tudo correto
Parecendo que o mundo ao redor errasse sempre
Como se precisasse do detalhe salvador
Do toque edificante contido em seus ideais inalcançáveis

Filosofia própria que revolucionaria o mundo

Continuo irritado quanto a sua necessidade
Desconheço o limite da bondade descomprometida
Onde ela esbarra na troca
Quando ela mostra-se um gesto de desapego

Fazem mesmo por puro contentamento alheio?

Cada vez que me pergunto
Respondo mais e sempre por mim
Egoísta e míope
Não miro ou almejo soluções para ninguém

Dou forma à argila da verdade em comunhão

Quero as impressões digitais das nossas ajudas
Simbiose dos impérios de entendimento
Aprender em conjunto
Tocando a pele do desconhecido para saber diferenciar da minha

Ser o diferente que você conhece

Preciso da permissão solene de seu desejo
Para simplesmente ficar perto
Ou longe o suficiente
Para ser percebido

No exato tempo para ser querido

Que eu seja rude o suficiente
Sutil o necessário
Eloqüente o quanto possível
Silencioso como sensível

Deixe-me ser imprescindível

Carinho de seu afago
Pele do seu toque
Calor da sua carne
Saudade do seu amor

Esquecimento vivo de suas lembranças mortas

Faz de mim extensão de seu querer
Use com toda vontade e necessidade
De utilidade a esta vida que deve ir além
Disponha da força que você não tem

Que eu seja sua ferramenta

Porém, venha de você a força
O ímpeto, o impulso: a confiança
Imagine o prazer imensurável
De ser meio dos seus fins

Ser caminho de suas pegadas

Seria até fácil colocar-te no colo
Pedir licença às dificuldades
Saltar pedras e descaminhos
Facilitar o encontro com seus sonhos

Mas a vida não seria a sua

Estaria invadindo um local santo
Altar impenetrável e inalienável
Indisponível pela própria natureza
Exposto a qualquer reles incerteza

Ainda assim, intrínseco e indisponível

Seu querer é impenetrável
União indissolúvel daquilo que se sabe com o que se sente
Aquela impressão de poder absoluto
Potencialidade de conquistas infinita

Palpável e alcançável pela aproximação do tentar

Que pode ser e,por vezes muitas, será
Dolorido, torturante e lacerante
Deixando marcas e certos sorrisos
E uma certeza aterradora:

Somos mais capazes, fortes e vorazes que imaginávamos

Desde o último golpe que levamos
Do lamento que deixamos escapar
Da última dor pensada impossível de aturar
Daquele derradeiro suspiro da desistência que não veio

Percebemos que continuamos

Transpondo os perigos e problemas do dia-a-dia
Buscando, até inconscientemente, desafios maiores
Alguns grandes demais para nossas forças
Justamente nestes ganhamos mais

Pedindo ou aceitando ajuda

Que se obtém e mantém baseada na confiança
Estendendo-se pela esperança
Assegurada por nada
Pois nada garante que ela irá funcionar

Não esqueçamos que viemos tentar

Cada um a seu modo
De seu único e exclusivo jeito
Sem pretensão de ser a verdade
Isento da empáfia de ser perfeito

Preciso de ajuda, posso ajudar?

8.7.05

Viés

Perceba o detalhe:
Amar não é querer que você seja minha
É me permitir ser completamente seu

Me leva pra você!

5.7.05

Expurgo

Quando o silêncio invadir sua essência
Expulsa-o como se faz com as coisas desnecessárias
As ruins, embora desta natureza, acontecem
E demônios, devemos tê-los

Sob domínio e eterna vigilância

Que fiquem os outros surdos
Frente às súplicas e pedidos de perdão
Quero prover o mundo com minhas bondades
Ser excessivamente mal com minhas maldades

Transformar todas as mentiras verdadeiras em falsa inverdade

Possua seu opressor pelo âmago
Invada seu estomago moral
Faça-o passar mal, marear, vomitar
Torne-se o mais repugnante possível

Para que ele odeie olhar na sua face linda

Sentindo pregos penetrando seus ouvidos
Urrando surdamente quando perceber
O sussurro de seu nome santo
Soletrado pela boca imaculada de uma criança

Alienada do valor e força que tem a palavra

Exume do seu manto chamado pele
O ranço vil e podre do tempo perdido
Deixe para trás o passado que já não se desfaz
Perfumado da carnificina que se realizou

Morremos sempre a cada presente que se desnuda

Quantos defuntos de nós próprios deixamos sem farol
Que lhes iluminasse o tortuoso caminho de regresso
Rumo a lugar algum, incerto, incesto
Enamorado com a intima filha

Do caso entre vida e Tempo nasce a morte

É nossa vivência que dispomos quando erramos
Tolos e incompreensíveis
Extirpamos a única coisa que temos
Querendo justificar uma crença infame

Achando que o amor nos salvará

Falácia escandalosa
As premissas se unem e nos levam a uma ação
Praticada por nós, sujeitos
Metendo os pés pelo coração

Prevalecentes do nada pela razão

Tudo é puro detrimento, ilusão, divertimento
Dor consome sorridente
Cresce como fogo em vento
Não há o menor contento

Mas existe a compensação inútil de um momento

Sabemos, temos certeza: queremos muito mais
Merecemos a eternidade que a volatilidade nos traz
Incapazes de enxergar o próximo passo
Aprazamo-nos com migalhas

Tornamo-nos magros, fracos, derrotados

O outro, diabo, parece rir de nossa cara
Ali, desesperados, despreparados, desalmados, ajoelhados
Regurgitamos farpas de sutileza
Tentando mostrar uma beleza sumida a muito

Endeusando coisa que já fomos

Deveríamos nesta hora abrupta
Parar, pensar e parar
Se aspiramos o forte, belo e potente
Não seremos objetos do amar

Quando refeitos no reverso de nosso buscar

Insistimos, vadios e doentes em transferir
Imputamos ao outro aquilo que sonhamos e somos
Por pura falta de coragem
Pela gigantesca e reprovável insistente covardia

Pela vergonha em ser simplesmente melhor

Sejamos aquele que suscita desejo
Responsáveis pela felicidade alheia
Epicentro vivo e mutante dos delírios externos
Confiantes, confiáveis e apaixonantes

Donos da própria vida, imbuídos de vontade

Auto-estima estratosférica
Confiança inabalável
Atitude incontestável
Sentimento imensurável

Leveza de um soprar de velas

Que escurece o ambiente quando se apagam
Igualando todos os presentes
Na escuridão da mesmice somos idênticos
Nem a diferença é diferente

Graças ao amor cego, verdadeiro, que apenas sente

28.6.05

Pedinte

Por favor, não me escoltem ainda
Preciso e quero terminar muitas coisas
Devo e posso começar infinitas algumas
Necessito permanecer na imperfeição da minha vida

Para que eu viva tentando acertar sempre

Redesmontando velhas e novas indescobertas
Fazendo valer a pena cada segundo que se ganha
Quando não perdemos tempo planejando sonhos
Gastando momentos grandiosos construindo objetivos

Sendo aquilo que não temos e ainda assim dispormos dele

Absorver toda a intensidade perdida
Nas coisas que se pode conter
Conhecer a noção de limite
Residente em cada impossível que se apresenta

Parar o tudo e começar a fazer o nada

Este contrário vazio incontável e imensurável
Oposto do que o existente pode ser
Intrigantemente denotativo de ausência
Faz-se insuportável quando é tudo que se tem

Deixem que eu erre mais e incessantemente

Que seja desculpa pra minha permanência
Motivo da falta de ausência
Se olharmos com eficiência
Repararemos que difere e muito de presença

Relação estreita com o verbo querer

Estar tátil, concreto é muito simples, direto
Qualidade inerente também ao objeto
Inanimado e sem vontade
Escravo de anseio alheio

Entregue a todo tolo ato de quantidade

Desprezo ser mais um
Sou o querer ser eu
Único e indescritível
Simples e não simplório; indefinível

Manter-me o seu que meu eu lhe deu

Amar a incogitabilidade de estar distante
Gostar do que sinto quando lhe sinto a cada instante
Normal, comum e natural
Porém indispensável, insubstituível e importante

Personificar o seu daqui por diante

Mendigo da própria vida atemporal e aviltante
Peço esmolas em esquinas errantes, berrantes, inconstantes
Desprovidas do encontro de duas ruas
Que se cruzam feito almas nuas, cruas, ofegantes

Escandalosamente desavergonhadas e delirantes

Pois minha carne não agrada
Minhas roupas desmentem a intenção residente
O coração que apaixonado chama
É o mesmo que chora apavorado

Sobre o colchão de mágoas e um frio cortante de estrelas

Brilhantes, cintilantes, instigantes
Não passam disso
Espelhos falaciosos de uma luz velha e distante
Como sua imagem refletida no vácuo de minha saudade

Lembrança intrapessoal de universos inconquistáveis

Farrapo maltrapilho envolvido em trapos
Cabelo desgrenhado, sujo, ensebado
Pés no asfalto olhar no alto
Unhas grades por único motivo

Extensões de mim buscando você

Qualquer coisa que aproxime
Sombras doces que iluminem
Dois olhos perdulários e inquietos
Estaticamente ágeis a ver

Mais um milagre acontecer

Recebo mais um milagre
Retiro as mãos dos bolsos da esperança
Acordo outro dia em minha boca
Pego carona na carruagem mágica da verdade

O desperdício é vicio do excesso

Quero que tudo em minha vida exacerbe
Frutificando abundantemente
Para que eu saiba doar de bom grado
Toda vez que a vida desfavorecer

Lembrar do tempo em que estive sentado

Olhando para cima
Mãos espalmadas
Suplicando humilde a possibilidade da sua vontade
De mais um dia ao menos

Nem que fosse pra sentir saudade

23.6.05

Destinatário: Eu

Assusta a incapacidade de ser capaz
Teimosia de fazer de tudo para não fazer
Encostar a vida na vida alheia
Como se fosse permitido sorver a energia dos outros

Como vampiros de vontade

Sugando a seiva santa do querer
Residente em esforços que se esforçam
Em corpos que se cansam pelo cansaço justo
De terem feito tudo à exaustão

Por desejarem ir até o fim

Que não é e nem deveria ser
Um simples desfecho comum
Exacerba esta mera percepção física do ato
Fim é a certeza do novo recomeço

Aquele suspiro fundo, precioso; profundo

Como o mergulho delicioso que o sucede
Um vôo alucinante de asas abertas
Flertando com um céu de cor indescritível
Pois de olhos fechados não se teme a queda

Queremos apenas a sensação libertadora de cair

Se for num colo hábil e caridoso
Haverá conforto e aconchego
Um cheiro gostoso no pescoço
Cafuné demorado e um chamego

Despreze outra coisa

Querer as boas situações da vida não é proibido
Parece intocável, descabido
Quase um pecado oferecido
Quando felicidade é mais pertinente que a própria vida

Queira todas as coisas boas que o mundo oferecer

Sem ser promiscuo ou deliberado
Liberto sem libertinagem ; concentrado
Com cuidado, mas sem ter medo
Saber parar sem ficar paralisado

Buscando o equilíbrio satisfatório da satisfação

Extrair o máximo das pessoas e momentos
Sem, portanto ou contanto, usurpá-las
Certas vezes pedir um pouco mais, descaradamente
Em outras ser duro, sincero e com candura

Ser aquilo que todos sonham ser

Erramos quando elegemos um exemplo
Um ser divino que mora fora
Instante único que não demora
Alegria falsa que nunca chora

Achamos sempre que este outro não somos nós

Note a completa idiotice
Doar sua vontade a qualquer eleito
Que por mais bem intencionado que seja
Nunca alcançara o seu efeito

Inexiste alguém que melhor nos conheça

Sejamos domadores dos ímpetos que impulsionam
Responsáveis pelas verdades que construímos
Sujeitos das mentiras que contamos
Donos irrestritos da vida que cuidamos

Acordemos para a feroz e absurda realidade

Escondemo-nos tanto de nós mesmos
Fugimos o tempo todo deste desconhecido
Tememos incessantemente
Algo completa e absolutamente indolor

Feito palhaços vestidos de carrascos

Desperdiçando todo o preparo dispensado
Pintamos o rosto
Desenhamos sorriso
Calçamos esperança

Para depois vestirmos capuz e manto

Falsários por trás das ordens de um rei sujo
Que sequer macula suas mãos
Assépticas de suas tiranias sórdidas
Personificadas no açoite de nossas forças

Castigamos como se fossemos os próprios

Lavo meu rosto no espelho da minha vida
Enxergo um homem normal e feliz
Que tirou do carrasco o capuz
Do palhaço o nariz

Mantenho da maquiagem o sorriso que com minha alma condiz

20.6.05

Olhando

O céu magnífico
Diante da minha capacidade de ser ínfimo
Contemplo a beleza do saber ser simples
Complexa maestria entre brancos, terras e tons de azul

Extasiado frente tanta perfeição

Perco tempo na maioria dele
Preocupado em estar mais
Perecer melhor
Mostrar-me sempre perceptível e sedutor

Quando deveria apenas ser

Tantos exemplos das boas atitudes
Inúmeras amostras de como não errar
Passeios completos de idas e voltas
Certeza certeira de não precisar voltar

Tudo ao alcance da sensibilidade

Realmente maravilhoso
Quando atentamos para o outro
Descoberta genial perceber
Que os outros nos ouvem atenciosamente

Se vamos além do nosso próprio universo

Tomando quem nos cerca como um complemento
Querendo dele o que nos falta
Por vezes o que, talvez, nunca teremos
Algo que não nos faz parte

Justo por esta natureza não invejaremos

Diga o quanto é admirável
Quanto bem aquilo lhe trás
Como a presença alheia satisfaz
Perfazendo o mundo que desejamos

Bem ali, ou aqui, logo após nossa ausência de ignorância

Peito exposto, amor aberto
Não queira longe; seja perto
Ente multiplicador de carinho
Colha sementes de fruto certo

Mostre-se dentro, porem liberto

Contemple o seu que te amanhece
Note a grandiosidade de cada detalhe
Particularidades de cada alma
Vontades de toda gente

Embutidas em corpos que se confundem

Propositalmente semelhantes
Para que se chegue bem mais perto
Pois só assim é possível distinguir
Os amigos, os amantes e os afetos

Desta distancia nada é como antes

A mesmice agora é diferente
Aquele que lhe é único: seu presente
Sentirá que tudo é mero nada
Quando este novo ser lhe for ausente

Anoitece nubladamente a cada despedida

Não há luas que reflitam resquícios daquele sol
Apenas o azul nigérrimo e absoluto
Cegueira inversa que penetra; um vulto
Quietude escandalosa que abafa qualquer tumulto

Alegria que na sua ausência veste luto

Sensação de morte corriqueira
Traz a vida de qualquer maneira
Próxima: coração forte
Longe; eterno corte

Ficando: gozo e sorte

Em merecer sua diferença
Dar minha presença
Negar sua ausência
Compartilhar nossa querência

Ser seu eu que te penetra

O diferente que você procura
Conhecido íntimo que não tem nome
Que junto lhe preenche
Distante lhe consome

Marca sutil que jamais some

Ao seu lado piso as terras
Venero o céu singular de brancos e tons de azul
Mas já não sou tão mínimo
Nem universo distante algum

Sou seu amor e mais nenhum

14.6.05

Quimera

Vontade de vomitar tudo na sua cara escrota
Botar para fora a podridão que me faz carregar
Extirpar os dentes de sua boca fétida e inflamada
Escarrar toda minha doença na sua garganta

Fazer com que sinta seu amargo inútil

Pendurar de cabeça para baixo
Rodar, rodar, rodar e rodar
Esmurrar sua face idiota e babaca
Ver seu sangue escorrer pelos cabelos

Surrar até que peça arrego

Depois de disforme e dolorida
Chutar seu corpo vazio, imundo: vadio
Quebrar algumas de suas costelas magras e desprezíveis
Perfurar seu pulmão negro e moribundo

Pra que golfe napos de órgãos

Depois de reduzida a porra nenhuma
Partir suas pernas horrorosas, varizentas
Mostrar o quanto bisonha se apresenta
Levantar no colo só para ver cair de novo

Mais uma vez, e outra e uma seguida

Furar seus tímpanos asquerosos
Para impossibilitá-la de escutar
Urros de dor que estão por vir
Saiba que vai sofrer muito

Antes de morrer sangrando feito um porco

Dedos esfacelados um a um
Nunca mais tocará minha carne pura
Pisões únicos, singulares; particulares
Dor em mínimos detalhes

Sofra bastante filha da puta

Não terá chance para porra nenhuma
Sua língua desfigurada em aftas
Jaz pulsante em minha boca
Encapsulada nas frestas dos meus dentes

Afiados e fortes pra caralho

Grita agora figura purulenta
Saltite feito bobo da corte em minha frente
Flerta com a minha alegria ausente
Deixa mais um sonho meu dormindo

Meu novo nome: pesadelo

Sinta como é duro este chão
Quando sua cabeça é arremessada contra ele
Perceba o estilhaçar dos ossos de seu crânio
Mas não desmaie ainda

Não quero que sinta qualquer alívio

Fica maravilhosa assim
Com o semblante de coisa morta
Este nariz rompido, afogado em seu catarro
Que escorre em tons fascinantes de vermelho

Dizendo a todo instante: não pare

Pra que rastejar feito um verme que não é
Eles não merecem tal comparação
São infinitos melhores que você
Sossegarei seus braços suplicantes

Fraturas expostas são divinamente realizadoras

Sequer cogite pedir perdão
Não pode nem escutá-lo
Mesmo que eu quisesse dá-lo
Entende agora a sensação de beco sem saída?

Quero que você se foda

Participarei porém
Não gozará este momento sozinha
Nunca lhe quis tanto
Contemple a aptidão física de meu desejo

Apenas olhe, pois é a única coisa que pode fazer

Rasgo cada trapo de suas vestes de gala
Embevecidas num suor que cheira a ferrugem
Abro seus arremedos de pernas
Para penetrar-lhe carinhosamente

Quero introduzir minha vida em seu ser

Deitado sobre seus restos que padecem
Aproveito cada instante deste prazer inigualável
Suspeitava que seria grandioso
Mas superou todas as expectativas

Estupro seu corpo e mente

Bom poder morder e arrancar aquele pedaço
Indescritível enfiar as unhas
Sentir sua fibra lacerar
Apertar até romper os capilares

Deixar hematomas em todo lugar

Pensei que fosse querer participar
Escolher uma posição que gosta mais
Nem gemer consegue
Sem possibilidades de ficar de joelhos

Agora deixará de ver

Empurro seu olhos pra dentro com fúria
Transo seu corpo em total luxuria
Bicho incontrolável e surdo
Alheio a qualquer lamúria

Jorro vida em sua eminente morte

Você sorri este aborto
Encontra beleza neste coito infernal
Alegria onde só deveria doer
Felicidade quando devia morrer

Tudo é apenas banal

Foi surrada, mal tratada, torturada
Mas gargalha da sorte; namora a morte
Infeliz, miserável e desgraçada
Falece indigente, um mero borrão

Sei que renasce, pois é solidão

10.6.05

Saindo

Dispa-se
Deixe esta pano escorregar por sua presença
Tire esta roupa íntima
Revele toda sua intimidade

Vista-se desta água quente que expõe seu corpo

O vapor faz seu olhar rutilar
Adoro a leveza sublime de sua silhueta única
Perfeição de curvas retas
Sempre o menor caminho

Entre meu desejo e toda sua carne

Seus poros abertos, sensíveis, visíveis
Cabelo e rosto molhados, ilhados
Sensualidade arrebatadora e calma
Meus olhos vidrados

Seu ser cercado do meu por todos os lados

Mão percorre próprio corpo
Seguindo um rito perfeito
Espalhando seu colorido pleno
Por seios, coxas e umbigo

Tanto carinho denota o perigo

A alvura do algodão acolhedor
Enxugará a pureza do banho
Mas não levará nada de sua beleza
Esfoliará sua pele apenas

Impregnando o ar com todo seu perfume

Que se espalha por minha cabeça
Toma conta de meus pensamentos
Transformando a realidade simples do ato
Numa implicância incessante

Quase um mal-trato

A nudez é seu melhor traje
Por saber disso instiga, fustiga
Antes de cair, a toalha sortuda se agarra
Livre de qualquer amarra

Nua em pelo de novo

Um dos pés sobre a cama
O dorso elevado
Janela ao fundo aberta
E a lua cheia é nada

Comparada a sua capacidade de ser bela

Desimporta a roupa que porá
Mas sabe que fica linda de preto
Realça seus olhos marcados
A vida em festa que vive em você

Intensifica o brilho da sua pele lisa

Os adornos são realmente bonitos
Tentam em vão executar missão ingrata
Vai ser impossível
Desviar a atenção do conjunto majestoso

Fica irresistível somente de sandálias e brincos

Usa uma sombra leve
Lápis para avisar
Que é melhor não se descuidar muito
Há fogo neste lugar

Ofego por me queimar

Como se não bastasse
Quase como uma louca
Tira o brilho da bolsa
Espalha por toda a boca

Amanheça meus lábios noturnos com esta luz

Sabe que já não agüento mais esperar
Em frente ao espelho
Um dedo indica
Que devo me aproximar

Mestra na arte de desconcertar

O toque conhecido é sempre surpreendente
O cheiro, quase infame, contundente
O pescoço forte, firme, aparente
Vontade imensa de fincar meus dentes

Quando sou invadido por um olhar

Tudo o que sente é meu
Nada do que vê é seu lugar
Aquilo que ninguém pode possuir
É justo o que quero lha dar

Vestindo para se desnudar

Um abraço por trás carinhoso
Momento tranqüilo, gostoso
Suspiramos felizes, leves no ar
Já não falta nada, está tudo pronto

Daqui não podemos voltar

Fecho todas as portas
Apago as luzes do quarto
Deixo o silencio entrar
Pego as chaves do carro

Aonde vamos jantar?

8.6.05

Uivantes

Fala brincando como se fosse possível
Tarefa que se dá a crianças para executar
Coisa que se resolve num piscar de olhos
Num balançar de folhas com o vento

O que nos une é maior, exige cuidado

Muitos querem ter e não conseguem
Fazem força, simulam, intitulam: inferem
Mas estão longe de sentir
Fazem apenas iludir e mentir

Sinto você como se fosse perto

Desconheço as linhas que nos dividem
As peças que nos desmontam
Histórias que não nos contam
Limites que não me limito ter

Nada faz existir o distante

Quero sempre mais
Por desejar querer, tentar
Um tom vermelho sangue
Que nos faz viver, chamar: pulsar

Sequer cogite esquecimentos

Faço palavras para sua capacidade de ler
Juntando em frases pro seu tino de entender
Construo imagens no seu apreender
Para que me prenda junto a você

Nas entrelinhas, que me carregue, me enxergue: descubra

Inunde, veleje, navegue
Com seu desejo, nos dentes cerrados; me pegue
Sendo bom, convide e me leve
Serei querido, contido e entregue

Sua vontade não há quem negue

Além do que eu possa representar
Dos sentimentos que venha a despertar
Prende-me seu apego, seu pacífico desassossego
Suas palavras braços destronando medos

Seu jeito completamente conquistador

Segurança no que acredita
Crença no que faz
Uma força que extrapola meios
Destes cantos digitais

Esta vontade enorme de concertar o mundo

Acabou me acertando
Foi entrando e me levando
Se entregando e me roubando
Brincando eu fui amando

Sem pedir eu fui ficando

Fui acolhido, observado: escolhido
Felicidade lhe falar e ser ouvido
Por isso não chore saudade
Pense em mim e esteja comigo

Impossível ter te esquecido

Muitas vezes quero estar a seu lado
Vontade de um abraço
Sentir de verdade estar perto
Unido como um laço

Distancia concreta e real

Compenso escolhendo minhas melhores falas
Para encontrá-la, poder dá-las
Como se através delas você me sentisse
Fazendo com que eu existisse

Sua aparição revela o acerto

Desejo um dia ficar bem perto
Sob a mesma chuva
Debaixo do mesmo teto
Ao alcance instantâneo

Do enorme e verdadeiro afeto

6.6.05

Menos Fácil

Se fizéssemos pelo que dizem
Pararíamos antes de começar
É tudo tão aterrador
Quando não sabem o que queremos

Farei sempre, por toda minha vida

Independente de adivinhar se melhora ou piora
Se rápido ou se demora
Faça com intuito de conseguir
Junta a força a vá embora

Saiba quando chegar a hora

Escutaremos várias verdades pelo trajeto
Muitos estarão errados, outros serão certos
Haverá dias duros e noites sem nenhum teto
Mantenhamos a esperança e todo resto

Pessoas nunca são objetos

Difícil descoisificar alguns que nos cercam
Complicado não retribuir a altura
Opte pela simplicidade complexa
De sabermos ser melhores ao lidar com piores

Não adianta doutrinar bestas feras com violência

Este é o linguajar delas
Devemos demonstrar segurança e poder
Mas é preciso ser gentil
Agir com extrema inteligência

Queremos que elas aprendam

Contrário de mostrar que sabemos ser menores
Que conseguimos maltratar
É fácil fazer errado, diminuir
O resultado é imediato

Crescer é lento, demorado, e só se percebe com o tempo

Tomaremos mordidas certamente
Será doloroso
Quereremos parar com tudo e desacreditar
Que não fomos capazes de domar aquele bicho revolto

Sem atenção miraremos errado mais uma vez

Ele é mesmo difícil, relutante, replicante
Chega a ser bruto, pontiagudo e ignorante
Capaz de destruir no intervalo de um instante
Ignorância parece nunca ser bastante

Aspiremos o bem-querer

Por sua vida, quando discordar de alguém
Ou do próprio mundo
Seja inteligente, delicado e sutil
Lembre como a beleza aproxima o desconhecido

Sorria ao estranho com sinceridade e paixão

Com amor pela vida, pelo outro
Que ser motivo de reconhecimento e aconchego
Seja um fato corriqueiro
Atitude de uma alma em desapego

Consigamos ser amáveis até para discordar

Que acordemos para o significado das palavras
Sem brigas, sem turras, sem pedras
Sem picardias, ardis e emboscadas
Façamos o possível para sermos supremos

Porém, que não subjuguemos

Que não sejamos retrógrados
Não aprisionando para libertar
Sem guerras para pacificar
Sem cruzes para exemplificar

Sem ódio para justificar o amar

3.6.05

Sinestesia

Nem sei se eu mesmo entendo
Sei que sinto as coisas do mundo
Batendo em minhas palavras
Que saem com firmeza aterradora

Sei exatamente do que não estou falando

Os arrepios quentes descem pelo couro
Fazendo ouro das minhas extremidades em decimal
Estes dedos frágeis que tentam captar
Idéias ágeis que confundem minhas clarezas

Arrumo tudo em grupos de cinco linhas

A ordem dos acontecimentos
Deriva daquilo que absorvo ao meu redor
Por vezes me falta um langanho de escrita qualquer
Na maioria das vezes sobra a escassez do grafite

As rimas que fogem parecem mais belas que as ficantes

Quase prepotente invento palavras
Verbifico substantivos
Dou alma a coisas mortas
Enxergo vida na tristeza infinita de rompimentos errantes

Sensibilizo um pós no que era apenas antes

Este próprio, do que fala, não sei dizer
Fruto de um comentário carinhoso que pude ler
Não tenho a resposta que deveria
Dou-me a todos por minhas letras

Sou aqui descrito ao escrever

Se toco a muitos é porque fui tocado
Retribuo cada afeto, cada gesto, cada teto
Esforço-me para olhar no silêncio dos que apenas passam
O que faltou para que eles parassem

Comentando o que sentiram

Mas faço de forma igual
Por muitas leio com pleno respeito
Admiro, paro, reflito e respiro
Tomado por emoção contida sequer sugiro

Apenas adoro pois nelas creio

A invisibilidade das tormentas criadas
Esquentam minha cara calma
Rebatem em minhas dúvidas claras
Sacudindo uma estrutura maleável

Recebo cada idéia como um presente

Sou feliz por perceber
Que duvido de minha própria escrita
Achando que poderia ser refeito
Algo que para alguém foi perfeito

Acreditar que há outro jeito

Porem, em todas as minhas linhas
Há um desejo que sei de cor
Espero que todos queiram
Fazendo de si, seu mundo

Lugar feliz de tempo habitável e a cada dia um lugar melhor

1.6.05

Cego de Visão

A magreza consumia-lhe, faminta
Como se quisesse roubar seus ossos
Pois já não havia carne alguma
Só o esboço, um croqui, bisonho, em pelancas

Não havia traço do que poderia ter sido

Desconhecido o motivo da derrocada
Incerto também se existe crise
Naquela visão triste
Vida esvaindo e morte em riste

Expondo a todos aquele espetáculo

Sem saúde, sem beleza, sem virtude
Entregou-se a pista perigosa
Procurou paz num carro apressado qualquer
Queria privar os expectadores da aterradora visão

Mas há cegos pelo caminho

Que têm o sentir como profissão
Enxergam além dos puros olhares
Mergulham na feiúra volátil das estampas
Respirando a beleza esquecida em farrapos de vida

Aspiram o bem de quem já não o tem

Seria mais uma vítima do excesso de azar
Mais uma culpada pela fraqueza da sorte
Há existências dignas de pena
Reais merecedoras da morte

Trabalham os cegos

Repletos de autoridade imobilizam a via mortal
Chegam reforços na viatura flamejante
Munidos da parafernália necessária
Que cessará o tumulto causado

O silêncio toma conta do lugar

Saem os cegos com seus escudos de espelho
Abrem um clarão em volta daquele arremedo de vida
Que desanimado se entrega ao conforto áspero do chão
Suplicante por um fim indolor, eficaz e voraz

O circulo de reflexos mostra opções

Variadas, boas e perturbadoras
Umas infinitamente piores que o agora
Algumas melhores que os mais lindos sonhos
Um único espaço vazio e a via vazia ao longe

Nossa amiga abatida resolve levantar

Descobriu que ainda havia força para mais alguns passos
Que se quisesse conseguiria andar
Desdenhou dos infortúnios e glórias das imagens
Resolveu caminhar

Descobriu que sabia enxergar

Cambaleante e feliz dava passos fracos
Imponentes, comoventes: decentes
Sustentava sua fraqueza com a devida austeridade
Pedia ajuda como quem reconhece o valor

De querer ser ajudado

Daquele instante em diante
Uma vida nova desestagnava
O corpo esvaziado do ontem
Deu lugar as chances do presente difícil

O futuro continua incerto e inseguro

Porém existe
O póstumo se posta de pé e caminha
Ali jaz um defunto que vive
Promessa absoluta da vontade de ser feliz

Nem todos acordam vivos quando abrem os olhos

Somos mortos se não fazemos por nós
Egoístas, mesquinhos e pobres se sós
Infelizes aqueles que não entendem
A verdade absurda do sorriso intacto das crianças

Que amam na mais completa cegueira

Escolhem pelo instinto
Pelo cheiro, carinho e confiança
Mirabolantes, entregam-se ao colo santo
Que lhes reconforta e traz esperança

Desconcertantemente são

Que seu destino refletido em nós
Seja tão maravilhoso quanto seu passado inteiro
Pois elas sabem amar a todos
Com sentimento simples, verdadeiro

Sem espaços para reflexão

Mire-se nos olhos do dito sadio
Como se este fosse fisicamente incapaz
Encontre nele a opacidade branca pacificadora
Que não lhe reflete jamais

Sem sua imagem pronta é você quem se faz



P.S: Gostaria de explicar o motivo e o porquê deste texto. Hoje, ao sair para trabalhar, normalmente, o transito ruim de costume estava pior. Uma viatura do corpo de bombeiros estava resgatando uma cadela. Magra, mal tratada, talvez vadia e sem dono, mas uma vida. Assustada, tinha os quantos baixos, rabo entre as pernas e aquele olhar de: me ajude por favor. Foi o que ocorreu. Os bombeiros pararam o transito, liberaram o caminho e puseram-na em segurança, sem puxá-la ou forçá-la em momento algum.
Já vi bicho gente em situação igual ou pior e felizmente existem bombeiros de vida por aí, esperando por um chamado. É bom perceber que certas pessoas entram no fogo literalmente por semelhantes que sequer conhecem e em certas situações que estes mesmos são capazes de arriscar a própria vida para salvar a daqueles que talvez nem as tenham mais.
Que tenhamos a decência de sabermos quando pedir ajuda. E mais importante, que quando formos ajudar, que façamos de coração, sem esperar gratidão, sem estarmos motivados pela aparência ou conhecimento sobre aquele que receberá nossa ajuda. Que antes de começarmos a fazer qualquer coisa em nossas vidas, saibamos que estamos fazendo por simplesmente querermos fazer. Obrigado e desculpem qualquer maluquice. Beijos